Quem sou eu

terça-feira, 1 de novembro de 2016




ROAR


- Acho que não sinto mais o que sentia antes - disse ele de forma displicente.
Virei-me para fitá-lo.
- Não entendi.
- Eu não te amo mais. Acho que é isso.
Pousei a colher na beira da panela e cruzei os braços sobre meu avental de Mulher Maravilha, presente de três meses de namoro.
- E você decidiu isso em um cinco minutos? Foi mais rápido que o miojo que estou fazendo.
- Não deboche, Luísa. É sério.
- Você quer terminar?
- Não vejo outra alternativa.
- Como você deixa de amar uma pessoa de uma hora para a outra?
- Lá vem você com seus dramas - disse ele enquanto se sentava no sofá colocando uma das minhas almofadas de caveirinhas no colo - Talvez fosse só paixão. E não foi de uma hora para a outra. Eu já estava assim desde Jurerê.
- Mas você disse que me amava todos os dias em que estivemos lá. Era mentira?
- Não era mentira... Só tentei forçar o máximo que pude. Não queria que terminasse assim.
- Uau! Quer dizer que o que vivemos lá era você ''forçando'' felicidade? - dei ênfase na palavra imitando aspas no ar.
- Outra dose de drama na mesa sete, por favor! - ironizou ele enquanto levantava a mão como se chamasse um garçom.
Eu sempre odiei que me chamassem de dramática. Mas nunca neguei que fosse na maioria das vezes. Porém essa não era uma delas. 
Nosso namoro já entrava na casa dos oito meses e eu juro que nunca imaginei que ele estivesse perdendo o interesse na gente.
Tirando vez ou outra que eu o sentia longe, o Leonardo havia se tornado parte de mim.
Fazíamos uma dupla e tanto. Pelo menos era o que eu achava...
- Posso te pedir um favor?
- Claro, Luísa. Ainda somos amigos, não somos?
- Espere um mês, pelo menos para aparecer com outra pessoa.
- O QUE? EU NÃO... LUÍSA. NÃO É ISSO. EU NÃO TENHO OUTRA PESSOA.
- Promete?
- Claro... Eu... Poxa. Que chato isso. Desculpa, desculpa mesmo. Eu me tornei uma pessoa que não gostaria de ser. Não sei o que deu em mim. Mas é isso. Não sinto o mesmo. Desculpe.
 Jurei que ele iria chorar ali na minha frente. Nunca vi o Leonardo chorar. Mesmo quando fomos ver no cinema 'Procurando Dory' e eu chorei feito um filhote de cachorro na primeira noite com os donos novos. 
Mas não foi desse vez, ele só me deu um abraço, pegou sua mochila, a chave do carro, o celular, o boné preto inseparável e partiu.
Faz um ano desde que ele se foi e eu fiz questão de nunca mais vê-lo. 
Não só pessoalmente. Fiz ele sumir de todas as minhas redes sociais e dos círculos de amigos.
Ele virou um nome impronunciável. Para meus amigos ele era o 'você-sabe-quem' na minha ausência. 
Fiquei sabendo que na mesma semana que terminamos ele encontrou outra garota. Giovana era o nome dela. Um amigo em comum me contou sem querer.
Não somos mais amigos mas valeu a informação.
Até alguns meses atrás eu sentia que Leonardo me fizera um favor de deixar eu fazer parte de sua vida. Afinal, os melhores momentos da minha foram com ele.
Mas hoje penso que a sorte foi dele de ter tido uma amostra de como é ter minha companhia e meu amor incondicional ainda que por um pequeno espaço de tempo.
Ele provou, gostou, mas enjoou.
Isso me lembra uma música de uma cantora famosa que, de tanto tocar nas rádios (e na minha playlist), eu não posso nem escutar que já me irrito. 
Deve ser isso: uma música boa, de tanto ser ouvida, fica insuportável.
Eu devo ter me tornado para ele uma dessas músicas. 


sábado, 27 de agosto de 2016


Cavalheiros do Zodíaco

Já eram mais de três horas e a lua minguante sorria para os dois lá embaixo como em um comercial de creme dental.
Eles revezavam no telescópio observando as estrelas e se abraçavam deitados sobre um cobertor azul.
Do lado deles, uma garrafa de champanhe. Nada de taças ou copos.
- É engraçado - diz o mais novo.
- O quê? - O outro vira de barriga para baixo enquanto fixa os olhos no companheiro.
- Quem catalogou as constelações simplesmente viu desenhos nelas. Mas isso não significa que elas realmente pareçam aquilo.
Me parece muito aleatório. Carangueijos, Centauros... É como quando você está brincando de achar desenho em nuvens e quer que todos enxerguem seu dragão nelas.
Houve uma pausa curta em que era possível ouvir corujas ao longe e alguns peixes indo à superfície no rio que tangenciava o gramado.
- Cada pessoa podia ter a oportunidade de nomear uma constelação, não é?
O mais novo não responde. Ele pega a garrafa, ainda na metade e toma dois goles. Ele a oferece mas o outro rejeita.
- Se você pudesse escolher uma constelação que nos representasse, qual seria?
Ele pousa a garrafa na grama, coça sua imensa barba e diz sem pestanejar:
- O Cruzeiro do Sul.
E aponta o céu para que o outro consiga achá-la. Ele enfim a encontra e sorri, dizendo:
- Por quê? 
O outro aponta o horizonte, deita colocando seus braços atrás da cabeça e responde:
- Porquê ela indica o infinito.

sábado, 6 de agosto de 2016


Eu sou o Sol

A luz da sala estava apagada. 
Na TV, uma nova série sobre zumbis lançava luzes psicodélicas sobre os dois corpos no sofá.
Elas então foram interrompidas por um aviso de 'sinal ruim' no meio da tela.
- Toda vez que chove essa porra sai do ar.
Ainda com a cabeça no colo do outro, o mais novo concordou.
- O que vamos fazer?
Ambos se fitaram no escuro, tentando acostumar os olhos à penumbra.
Lá fora, a tempestade recém-formada não dava indícios de que acabaria tão cedo.
- Lembra quando há dois anos eu falei que um dia queria dançar na chuva contigo?
- No way. E tu lembra que eu disse que achava a ideia chata?
- Sim. Mas eu ganhei ontem no jogo de cartas e meu prêmio está pendente. Não seja um mau perdedor.
Ambos eram extremamente competitivos e viviam fazendo apostas que iam desde quem faria o jantar e lavaria a louça, até qual dos dois limparia os dejetos de seu cãozinho Bóris.
O vencedor do jogo levantou-se e se dirigiu para a varanda sem nem olhar para trás.
O outro refletiu um pouco, tirou o celular do bolso colocando-o na mesa de centro e o seguiu.
A chuva descia forte, fazendo um barulho estrondoso no capô do jipe laranja na garagem.
Ficaram ali sob o céu aberto por um bom tempo, de cabeças baixas, sentindo 
a chuva. As gotas caíam copiosamente em seus rostos próximos, formando gotas ainda maiores que escorriam pelas testas tão próximas.
O mais alto se aproximou e tirando os longos cabelos do rosto do outro, deu um beijo demorado.
E quando enfim descolaram os lábios, a chuva já havia passado e a TV da sala já voltava a fazer barulho.



domingo, 22 de maio de 2016

Poema Instantâneo XVIII

CAIXA FRÁGIL

Aos que anseiam meu coração,
Já deixo a precaução:
Não me chame de ignorante
Nem insista que eu me levante
Elogie-me sempre que possa 
Pois a minha auto-estima é roça
Não me cobre por respostas 
Apenas tente reformular a pergunta 
E não me imponha o que gosta.

Aos que anseiam meu coração,
Segue manual de instrução: 
O signo me fez dramático 
A vida: frio e apático
Costumo reclamar de tudo 
E criar meu próprio mundo

Aos que - ainda - anseiam meu coração,
uma última observação:
O produto é perecível 
E  talvez não merece seu sufrágio
Mas caso julgue acessível
Observe que na embalagem consta:
CAIXA FRÁGIL.

Minha autoria

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Poema Instantâneo XII


Das crises existenciais



É que no fim das contas 
Eu que sou todo errado

Um tanto complexado 
Aconselhador desvairado
Intenso apaixonado

Outro tanto pessimista 
Sumo sem deixar pista
Sigo o que a moda dita 

Um resto rancoroso
Vingativo e preguiçoso 
Nem sempre muito disposto

E no fim:
Realista
[Fim da lista]

Minha autoria

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Poema Instantâneo XI


O Feio Adormecido


Um silvo constante me atormenta:
A decepção me faz caudalosa tormenta

O desespero passeia em minha boca amarga
Mariposas negras passeiam no meu estômago 
Meus olhos ardem suplicando o pranto
Sigo sem rumo, atormentado e trôpego

Apesar de acostumado com tantos fracassos
Persisto o passo e nunca desisto
Mas a lastimosa rotina vem e me atinge
Tornando meu ser irritado e arisco 

A última esperança é deitar e dormir
[Mas não por pouco tempo como sempre fiz]
e quem sabe num sono eterno e tranquilo
Eu consiga nos sonhos, meu final feliz.


Minha autoria

sábado, 2 de janeiro de 2016

Devaneios II - Felicidade não cabe em porta-retrato


   No fim de ano, três coisas são certas: textões chatos no Facebook, retrospectivas dos seus amigos com quinze mil fotos e a piada do seu tio na ceia: "É pavê ou pacumê?".
No segundo caso, sempre rola aquela decepção quando seu melhor amigo se esquece de colocar uma mísera foto de vocês juntos. E isso aconteceu comigo.
Ao questioná-lo (lê-se: fiz muito drama) sobre minha ausência na sua coletânea de fotos ele me soltou uma das frases que embasa esse devaneio:
"Os melhores momentos da vida não têm fotos."
Parei pra pensar e é a mais pura verdade. 
Quando você planeja aquela viagem com sua família e vocês estão caminhando no calçadão, vendo os turistas, rindo dos seus sotaques e manias, sentindo a brisa do mar e semicerrando os olhos por causa do Sol quente: você não lembra de fotos.
Quando você e seus amigos se reúnem no fundo do quintal de um deles e bebem, comem, jogam baralho, fofocam dos antigos colegas de classe "Aquela lá já engravidou de novo!" "Como ele engordou, né?" ou lembrando os micos que eles já passaram juntos, a gargalhada em coro, os olhares, a música de fundo: você não lembra de fotos.
E esse esquecimento é automático. Afinal, qual a lógica de parar um momento bom pra tirar uma foto? 
E cada vez mais vê-se essa necessidade das pessoas em mostrarem às outras o quão são felizes. E é claro, na maioria das
vezes isso não é verdade.
Você vê aquela foto de sua amiga abraçada com outra, de biquíni, com um imenso parque aquático atrás, a foto pelo que se vê foi tirada logo depois delas terem descido um tobogã imenso que pode ser visualizado no fundo da foto.
E aí você para e pensa: Por que raios alguém estaria com um celular num momento desses?
Por que seu amigo levou um celular e tirou foto dele e dos amigos em um acampamento na montanha?
Por que sua outra amiga parou de jantar e interrompeu a conversa caloroso na Starbucks para tirar fotografias da comida?
As pessoas têm tido cada vez menos felicidade e cada vez mais ânsia de esfregá-la na cara das outras.
E no fim, quem é feliz de verdade, pouco se importa com que os outros saibam.
E mais, a verdadeira felicidade é velada. Escondida. Essa sim dura, vinga.
Porque ela não foi fruto da necessidade de registrar um momento e sim, de vivê-lo.
Por isso, pare de tirar fotos e selfies. Viva, aproveite. Guarde lembranças, não imagens. 
Não troque uma gargalhada por um flash.
Pois como dizia esse meu mesmo amigo:
"Momento bom não tem foto. Por isso todo casamento tem fotógrafo".

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Devaneios I - Lágrimas se secam sozinhas


O Marley falecido jazia na tela da televisão. 
Todos à minha volta soluçavam com o choro de lamento pelo pobre cachorro. 
Eu também sentia pena. Eu também me empatizava pelos seus donos. Mas eu ao contrário dos outros, não chorava.
E quando Hazel Grace leu o tributo ao seu amado Gus terminando com o famoso "Okay"? Ou quando Bentinho tenta assassinar seu próprio filho? Ou quando Forrest Gump consegue finalmente correr de seus inimigos? Ou quando o casal de Orgulho e Preconceito se reconcilia?
Eu sentia vontade de chorar. Confesso que até forcei algumas vezes. Mas o choro nunca veio.
E sempre admirei quem chora fácil.
Aliás, o choro, assim como a respiração, o batimento cardíaco e a fofoca, são inerentes ao ser humano e fazem parte de sua sina desde que o mundo é mundo.
Aqui eu deveria inserir uma retrospectiva histórica do choro e seus diversos significados mas, no momento, estou expressando ele de forma pratica.
Perdão pelo vacilo, caro leitor.
O fato é que eu, com 23 anos, só chorei de verdade duas vezes na vida toda.
Na primeira delas, com uns doze anos, roubei dinheiro da minha madrinha para comprar figurinhas. E não foi a primeira vez. Minha mãe me deu uma bela surra e eu chorei de verdade, arrependido (e com o bumbum ardendo). E ela chorava por ter que me fazer chorar. E eu chorava por ter feito ela chorar. Então, nós dois se olhamos, nos abraçamos e tudo ficou bem.
(Essa ultima parte não aconteceu, mas achei que enriqueceria o texto).
Mas aquele choro valeu a pena. Eu precisei daquilo pra digievoluir pro que agora sou. Valeu a pena chorar.
E agora, quase o dobro de anos depois, chorei pelo término do meu primeiro namoro.
E dessa vez o choro foi diferente. Automático. As lágrimas caíram fáceis, descartáveis. 
Foi quase uma lavagem de alma. Um recomeço. Porque eu sabia que havia feito de tudo o que podia para aquilo não acontecer.
É engraçado como em ambos os casos a resposta física foi a mesma: lágrimas caindo dos olhos, sensação de desespero, coração acelerado. Mas a marca que ficou na alma é diferente. 
Com isso, aprendi que chorar faz parte. Que homem também chora. Que ser frágil faz parte. 
Minhas lágrimas foram com o ralo, traçaram seu caminho. Uma despedida. Assim como minha angústia.
No final, minhas lágrimas foram a cura e não a doença.