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sábado, 2 de janeiro de 2016

Devaneios II - Felicidade não cabe em porta-retrato


   No fim de ano, três coisas são certas: textões chatos no Facebook, retrospectivas dos seus amigos com quinze mil fotos e a piada do seu tio na ceia: "É pavê ou pacumê?".
No segundo caso, sempre rola aquela decepção quando seu melhor amigo se esquece de colocar uma mísera foto de vocês juntos. E isso aconteceu comigo.
Ao questioná-lo (lê-se: fiz muito drama) sobre minha ausência na sua coletânea de fotos ele me soltou uma das frases que embasa esse devaneio:
"Os melhores momentos da vida não têm fotos."
Parei pra pensar e é a mais pura verdade. 
Quando você planeja aquela viagem com sua família e vocês estão caminhando no calçadão, vendo os turistas, rindo dos seus sotaques e manias, sentindo a brisa do mar e semicerrando os olhos por causa do Sol quente: você não lembra de fotos.
Quando você e seus amigos se reúnem no fundo do quintal de um deles e bebem, comem, jogam baralho, fofocam dos antigos colegas de classe "Aquela lá já engravidou de novo!" "Como ele engordou, né?" ou lembrando os micos que eles já passaram juntos, a gargalhada em coro, os olhares, a música de fundo: você não lembra de fotos.
E esse esquecimento é automático. Afinal, qual a lógica de parar um momento bom pra tirar uma foto? 
E cada vez mais vê-se essa necessidade das pessoas em mostrarem às outras o quão são felizes. E é claro, na maioria das
vezes isso não é verdade.
Você vê aquela foto de sua amiga abraçada com outra, de biquíni, com um imenso parque aquático atrás, a foto pelo que se vê foi tirada logo depois delas terem descido um tobogã imenso que pode ser visualizado no fundo da foto.
E aí você para e pensa: Por que raios alguém estaria com um celular num momento desses?
Por que seu amigo levou um celular e tirou foto dele e dos amigos em um acampamento na montanha?
Por que sua outra amiga parou de jantar e interrompeu a conversa caloroso na Starbucks para tirar fotografias da comida?
As pessoas têm tido cada vez menos felicidade e cada vez mais ânsia de esfregá-la na cara das outras.
E no fim, quem é feliz de verdade, pouco se importa com que os outros saibam.
E mais, a verdadeira felicidade é velada. Escondida. Essa sim dura, vinga.
Porque ela não foi fruto da necessidade de registrar um momento e sim, de vivê-lo.
Por isso, pare de tirar fotos e selfies. Viva, aproveite. Guarde lembranças, não imagens. 
Não troque uma gargalhada por um flash.
Pois como dizia esse meu mesmo amigo:
"Momento bom não tem foto. Por isso todo casamento tem fotógrafo".

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