Quem sou eu

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Devaneios I - Lágrimas se secam sozinhas


O Marley falecido jazia na tela da televisão. 
Todos à minha volta soluçavam com o choro de lamento pelo pobre cachorro. 
Eu também sentia pena. Eu também me empatizava pelos seus donos. Mas eu ao contrário dos outros, não chorava.
E quando Hazel Grace leu o tributo ao seu amado Gus terminando com o famoso "Okay"? Ou quando Bentinho tenta assassinar seu próprio filho? Ou quando Forrest Gump consegue finalmente correr de seus inimigos? Ou quando o casal de Orgulho e Preconceito se reconcilia?
Eu sentia vontade de chorar. Confesso que até forcei algumas vezes. Mas o choro nunca veio.
E sempre admirei quem chora fácil.
Aliás, o choro, assim como a respiração, o batimento cardíaco e a fofoca, são inerentes ao ser humano e fazem parte de sua sina desde que o mundo é mundo.
Aqui eu deveria inserir uma retrospectiva histórica do choro e seus diversos significados mas, no momento, estou expressando ele de forma pratica.
Perdão pelo vacilo, caro leitor.
O fato é que eu, com 23 anos, só chorei de verdade duas vezes na vida toda.
Na primeira delas, com uns doze anos, roubei dinheiro da minha madrinha para comprar figurinhas. E não foi a primeira vez. Minha mãe me deu uma bela surra e eu chorei de verdade, arrependido (e com o bumbum ardendo). E ela chorava por ter que me fazer chorar. E eu chorava por ter feito ela chorar. Então, nós dois se olhamos, nos abraçamos e tudo ficou bem.
(Essa ultima parte não aconteceu, mas achei que enriqueceria o texto).
Mas aquele choro valeu a pena. Eu precisei daquilo pra digievoluir pro que agora sou. Valeu a pena chorar.
E agora, quase o dobro de anos depois, chorei pelo término do meu primeiro namoro.
E dessa vez o choro foi diferente. Automático. As lágrimas caíram fáceis, descartáveis. 
Foi quase uma lavagem de alma. Um recomeço. Porque eu sabia que havia feito de tudo o que podia para aquilo não acontecer.
É engraçado como em ambos os casos a resposta física foi a mesma: lágrimas caindo dos olhos, sensação de desespero, coração acelerado. Mas a marca que ficou na alma é diferente. 
Com isso, aprendi que chorar faz parte. Que homem também chora. Que ser frágil faz parte. 
Minhas lágrimas foram com o ralo, traçaram seu caminho. Uma despedida. Assim como minha angústia.
No final, minhas lágrimas foram a cura e não a doença.

Nenhum comentário:

Postar um comentário