Quem sou eu

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Universo Ocular

Universo Ocular

  Olhos grandes. Gigantes. Com certeza o que me remete a Benício são seus olhos. Ben também possuía um sorriso lindo, ombros largos e um bigode extremamente charmoso. 
  Mas seus olhos… Lembro-me - mais de uma vez - de ter parado de prestar atenção no que ele dizia enquanto me perdia naqueles globos gigantes. Suas íris negras eram como um imenso buraco negro ou de minhoca (nunca fui bom em física mas Ben era) e ali eu viajava Universo ocular a dentro, ficando longos minutos em transe.
- Você tá divagando de novo, né? - disse ele semicerrando os olhos.
- Coloque a culpa no meu signo. Piscianos são assim.
  Finalmente nosso pedido havia ficado pronto. A garçonete pediu licença e colocou os pratos e sucos na mesa. Como de costume, sempre confundiam nossos pedidos.
  Ben era bem mais novo e com cara de bebê. Logo, era natural que frequentemente achassem que o suco de laranja era seu. E eu, sempre recebia a caneca de cerveja como lembrança de que era eu quem deveria gostar. Esperávamos eles virarem as costas e destrocávamos as bebidas. Ben havia pedido um hamburguer com bacon e extra de cebola caramelizada. Ele não sabia mas eu não iria beijá-lo tão cedo.
- Você já decidiu se vai aceitar a proposta? - disse ele, com maionese no bigode.
- Ainda não. E tenho só duas semanas. Morar no Canadá sempre foi meu sonho, você sabe.
- Sei. Por isso não entendo ainda porquê não se decidiu.
  A ingenuidade de Ben às vezes era irritante. Ele tinha uma alma pura, sem malícias, sem maldade. Eu sempre vencia ele em qualquer jogo estratégico. Parte de mim suspeitava que ele me deixava ganhar para me ver feliz. E era isso que eu amava nele.
- Você é um dos motivos, cara.
  Ben arregalou os olhos. Aqueles olhos. Naquela hora eu senti meu coração ser puxado como um peixe quando é pescado e o pescador dá uma arrancada com a vara para garantir que ele seja fisgado.
  Naquele momento eu lembrei de um seriado que havia assistido quando adolescente onde a Bruxa enfiava a mão no peito da Princesa e retirava seu coração - literalmente. A Princesa ficava como um zumbi, sem sentimentos. Apenas vagando.
  Eu adoraria enfiar a mão no meu peito e entregar meu coração a Ben para não ter que abandoná-lo. Para não sentir a perda. Para não ter que me separar daquele olhar.
- São só dois anos. Eu posso te visitar pelo menos uma vez. 
- Ben, você é lindo. Você tem uma vida toda pela frente. Não quero que fique preso a mim. É sério. Você precisa… viver. Quando eu voltar, posso te procurar e…
- Nem termine esse papo aí. Eu não quero outra pessoa - Ben colocou sua mão em cima da minha. Em teoria eu deveria achar romântico mas secretamente fiquei com um pouco de nojo. Amor não combina com maionese.
- Lá vamos nós outra vez. Já conversamos sobre isso. Você é novo…
- Você sempre usando a carta do ‘’você é novo demais e não entende’’. Eu sei que sou imaturo para muitas coisas mas isso não inclui meus sentimentos. Meu amor por você é uma certeza. Não tenho dúvida nenhuma e isso não vai mudar. Não estamos em 1930, cara. Podemos fazer videochamada todos os dias. Quero saber quem são seus amigos lá, qual a previsão do tempo, se a neve é realmente molhada. Tem renas no Canadá?
- E depois você diz que eu que divago facilmente…
  Ben mordeu o que restava do seu hamburguer. 
  Lá fora, o crepúsculo laranja comum na cidade já havia sumido. E eu havia tomado minha decisão.

2 anos depois

  Aterrissei no Brasil em uma terça-feira. Havia guardado meu cachecol e gorro na mochila, sabia que aqui isto não seria necessário. No aeroporto, Samanta - minha melhor amiga - esperava-me com um sorriso largo.
- Como foi a viagem? Teve turbulência? Da última vez que fui para Nova York, o aeromoço caiu no meu colo enquanto o avião chacoalhava. Teria sido uma linda história de amor se ele não fosse da idade do meu pai.
  Samanta era borbulhante. Era impossível não tomar conta da sua existência. Ela não parava de falar e gesticular. Eu apenas concordava e sorria. Estava exausto pelo vôo.
- Você tem falado com o Ben? - perguntei enquanto ela contava do susto que deu em seu namorado batendo o carro em uma caçamba de entulhos enquanto dirigia.
- Não. Ele meio que sumiu. Vocês estavam se falando? - disse ela com um olhar desconfiado.
- No começo sim. Nos primeiros meses, trocávamos mensagens e ele sempre respondia meus stories no Instagram. Mas eu preferi me distanciar para deixar ele viver. 
- Isso não parece muito romântico.
- Não era para ser. Ele tem vinte e poucos anos. Ben merece viver intensamente e não ficar esperando por alguém que nem pode abraçá-lo. Seria egoísmo meu.
 Samanta calou-se; o que era curioso e raro. Colocamos minha mala em seu jipe e seguimos para a cidade. No caminho, passamos em frente ao restaurante em que comemos hamburguer em nosso último encontro. Senti uma fisgada no meu coração.
- Tá entregue! Amanhã não se esquece que temos o aniversário do Tulio, hein.
Tulio era o namorado de Samanta, eu adorava conversar com ele sobre qualquer coisa. Ele era o oposto dela, sempre ouvia tudo calado e no final dizia algo muito inteligente.
- Ok. Obrigado por me buscar.
  Despedi-me de Samanta e entrei no meu apartamento com as malas. Havia um cheiro de madeira no ar que sempre lembrava-me da minha casa. Chamei pela IA e pedi para tocar uma música da Olivia Rodrigo. Imediatamente pedi para mudar para outra. Olivia Rodrigo me lembrava Ben. 
  Pouco tempo depois, a campainha tocou. Fui até a porta e lembrei de olhar no olho-mágico da porta para ver quem era. Não esperava ninguém.
 Aproximei-me da pequena lente de vidro e vi do outro lado um imenso olho negro me encarando.

E aí o Universo me engoliu.


quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Almos Gêmeos

 


Era o slide dezessete de sessenta e tantos. Um inseto verde com asas rendadas e centenas de olhinhos estampava o fundo branco.

Respirei fundo. Minha camisa estava encharcada de suor nas costas e por isso eu evitava virar-me para os professores da banca. Eram três mulheres e um homem. A terceira delas, minha orientadora do TCC, observava-me por baixo de seus óculos vermelhos e com lentes que deixavam seus olhos gigantes. Todos do departamento a respeitavam pois fora escolhida como representante da área dos insetos por um antigo professor ancião e fundador do curso na Universidade. Ela descansou sua caneta no imenso livro que me custara muitas noites de sono e perguntou-me algo.

Surpreendi-me então com uma voz vinda da porta da sala. Luke. A pergunta havia virado palavras aleatórias no meu cérebro e esqueci-me por alguns segundos de absolutamente tudo. 


Seis meses antes


A cafeteria onde encontrei-me com Luke pela primeira vez ficava no centro da cidade, entre meu trabalho e a Universidade. Cheguei pouco depois do combinado e quando o vi sentado no interior do café lendo um livro, travei. Luke era lindo.

Ele usava uma camiseta preta de academia que acentuava seus braços fortes e contrastava com sua pele clara. Ele não era musculoso mas tinha um corpo bem definido.

Tomei coragem e entrei. Luke sorriu, me abraçou e começamos a conversar trivialmente.

Horas se passaram e só paramos de falar quando ouvimos um garçom dizendo que já estavam fechando. 

Luke dizia que éramos muito parecidos e que tínhamos muito em comum. Estávamos no último semestre da faculdade, ele de Letras e eu de Biotecnologia. Havíamos nos mudado para a cidade vindos de cidades menores. Morávamos sozinhos. Curtíamos algumas mesmas músicas, filmes e seriados. Claramente ele se esforçava para pontuar que tínhamos muitas semelhanças e eu concordava com tudo. Luke era encantador.


Cinco meses antes


Luke percebeu que tínhamos uma pinta exatamente no mesmo lugar: no braço esquerdo, na altura do cotovelo. “Mais uma coisa em comum”, ele dizia. Seu sorriso era quente, conciliador e deixava seus olhos pequenos. Adorava ver Luke sorrindo.

Certa vez, pontuou que nossos cursos tinham algo em comum: o Latim. A língua-mãe que ele era obrigado a aprender - a contragosto - e que eu usava nos nomes científicos das bactérias, vírus e insetos do laboratório. Em uma prova, perdi um ponto inteiro por ter errado a escrita de um nome científico (primeira palavra com inicial maiúscula e segunda com inicial minúscula). Contei para Luke e ele fitou-me com olhar de desaprovação. Sua sobrancelhas formavam um V e sua boca carnuda sumia. Adorava ver Luke irritado.


Quatro meses antes


No nosso aniversário de dois meses de namoro, presenteei-o com um dos meus livros preferidos: Toda Poesia, do Paulo Leminski. Dentro dele, coloquei post-its comentando minhas poesias preferidas. Em alguns apenas fiz desenhos do que sentia enquanto os lia.


Eu tão isósceles

Eu tão isósceles

Você ângulo

Hipóteses

Sobre o meu tesão

 

Teses sínteses

Antíteses

Vê bem onde pises

Pode ser meu coração


Neste, desenhei um triângulo retângulo com olhinhos e uma flechinha escrita “você”.

Junto do livro, coloquei um porta-retrato com um bilhetinho que havia feito para ele dias depois de nos conhecermos. Era uma brincadeira com o fato de Luke ter uma letra pavorosa. Era irônico para mim que ele quisesse ser professor com uma letra tão feia.

Mas tal fato virou um meme entre nós. Luke deixava o porta-retrato na sua mesinha de cabeceira. Seu olhar de desaprovação quando viu que eu havia guardado deixou tudo mais romântico.


Três meses antes


Estava atrasado com meu TCC. Luke passava os fins de semana todos na minha casa me ajudando a escrevê-lo. Já estava entendido em insetos, doenças bacterianas, agronegócio e genética. Ele revisava o que eu já havia feito e elogiava meu português. Comíamos pizza de pepperoni enquanto eu treinava minha apresentação. Luke era sempre o mais otimista e positivo, fazendo poucas críticas sinceras e construtivas. Sempre sorria e pedia para eu recomeçar. Ele deixou seu cabelo levemente encaracolado crescer novamente. Sempre fora uma insegurança para ele e conversávamos horas sobre auto-estima mas convenci-o de que ele ficava lindo de qualquer jeito. Ele também parou de usar boné pois não queria mais escondê-lo.


Dois meses antes


Fazíamos leituras conjuntas de livros por lazer e eu também lia seus livros obrigatórios da Universidade. Eram densos, com linguagem rebuscada e eu muitas vezes nem entendia sobre o que estavam falando. Luke pacientemente explicava-me sua visão e dizia que isso o ajudava a memorizar a história para as aulas. Nunca me considerei sapiossexual mas vê-lo falando suas impressões de leitura me deixava irriquieto. Frequentemente eu fingia não entender para deixá-lo falar mais um pouquinho. 


Um mês antes 


No nosso quarto mês de namoro, levei Luke para acampar. Minha cidade natal era conhecida por trilhas e cachoeiras e ele sempre pedia-me para levá-lo.

Nunca havia apresentado um namorado para meus pais e tinha muito receio de que não gostassem ou que estivesse obrigando-os a conviver com ele. Já havia me assumido há muito tempo mas meus pais acharam que fingir que eu não era gay seria a melhor maneira de lidar com a situação. Eles não perguntavam da minha vida amorosa e eu não falava dela para não constrangê-los.

Quando chegamos na casa deles em uma manhã de sábado, minha mãe levou Luke até a cozinha e perguntou de sua família e da Universidade. Luke era extrovertido e logo todos da minha família gostavam dele. Foi um alívio perceber que enfim eles aceitavam e que meu namorado seria como qualquer outro agregado da família.

Meu pai nos levou em seu carro até a área de camping na área rural da cidade. Levamos marshmallows na intenção de comê-los na fogueira mas 1) Não sabíamos fazer fogueira e 2) Quando enfim conseguimos, descobrimos que eles não eram específicos para isso e ficaram horríveis.

Por sorte, eu havia comprado batatas chips e comemos sentados na relva do camping olhando as estrelas. Fazia frio e fomos dormir cedo. O vento fazia um barulho horrível do lado de fora da barraca mas estar abraçado com ele fazia eu me concentrar em sua respiração e em mais nada. Luke era a conchinha de dentro. Eu era ligeiramente mais alto que ele e por isso exigi ser a conchinha de fora. Luke olhou-me com seu olhar desaprovação mas enfim aceitou. Percebemos que tínhamos a mania de dormir com um dos pés para fora do cobertor. Era mais uma coisa em comum, observou Luke.


No dia da apresentação


Luke olhou-me por alguns instantes. Não consigo discernir se ele realmente olhava para mim ou para o slide do inseto gigante logo atrás. Foram poucos segundos. Ele virou-se para um dos meus amigos sentados nas cadeiras próximas à porta e pediu algum tipo de informação. Ele assentiu com a resposta que ouviu e olhou novamente em minha direção. Depois foi embora. Provavelmente, pensei eu, era também o dia de sua defesa de TCC.

Ele nunca havia ido a um segundo encontro comigo. Tudo o que aconteceu depois foram projeções minhas de como poderíamos ter sido se ele houvesse me dado uma chance.

Não sei se foram meus cabelos despenteados, meu corpo acima do peso, o fato de eu ser bem mais velho  ou meu nervosismo naquela primeira conversa.

Neste dia, na porta, Luke usava uma camisa azul idêntica à minha. Talvez tenha sido isso que ele tenha observado em mim já que provavelmente não se lembrava mais do nosso encontro.

Ocorreu-me que nossas camisas iguais teriam sido mais uma coisa em comum das tantas que nos levariam para caminhos tão diferentes.





quarta-feira, 2 de outubro de 2019


Mudaram as estações


     Baunilha. Lembrar de Juno sempre ativa alguma área do cérebro responsável pelas memórias e logo em seguida ela sempre interfona para a outra que cuida dos aromas. E Juno definitivamente cheirava à baunilha.
    Naquela tarde de verão, estávamos sentados sobre uma toalha velha de mesa azul . Eu permanecia em posição-de-índio enquanto ele deitava a cabeça no meu colo projetando o corpo para fora da toalha. O Parque da cidade era o destino comum dos moradores, que no fim de semana, o visitavam para passeios, visitas aos animais de seu mini zoológico interno ou simplesmente fazerem piqueniques, assim como nós.
   Um elegante cisne negro fez uma manobra arriscada no lago à nossa frente e assustou-me. Juno amava me ver assustado.
- Você se assusta com absolutamente qualquer coisa - disse ele.
- Eu não tenho culpa - Falei um pouco magoado.
Juno bebia suco de laranja em um copo plástico e mexia em seu celular na outra
mão. Acariciei sua barba fina e dei um beijo em sua testa.
Juno projetou aqueles imensos olhos escuros em mim. Eles eram absurdamente pretos, como se as suas pupilas estivessem totalmente dilatadas e fossem me engolir como um buraco-negro a qualquer momento. E provavelmente eu gostaria.
Perdido em seu olhar, tive um espasmo em uma das pernas e com o movimento, Juno derrubou todo o copo de suco em minha perna.
- Ai, caramba. Desculpa! - exclamou ele, procurando um guardanapo para me secar.
Juno fez o que pôde para secar-me e ficou alguns segundos totalmente aéreo me olhando. Eu o acalmei e ficamos sentados frente a frente.
- Quer namorar comigo? - perguntou ele, tão sério como podia.
- Como é que é?
- Eu esperava receber apenas um sim ou não.
- Calma, é que foi bem aleatório.
- É que como você pode ver, sou bem desastrado e desatento. Prefiro garantir seu amor agora antes que você se arrependa.
   Meu estômago fez um estranho movimento e meus pelos arrepiaram-se um pouco. Saíamos juntos há quatro meses e, mesmo Juno tendo quase seis anos a menos que eu, isso nunca foi um problema.
- Claro que sim. É o que eu mais quero. - respondi rapidamente.
- Então ok - disse ele satisfeito.
- Ok.
Trocamos alguns beijos e voltamos à posição inicial. Era sempre ele que deitava no meu colo, nunca o contrário.

                                                                 ~ . ~

   Meses depois, voltávamos ao mesmo lugar. Nosso piquenique já era uma tradição que seguíamos religiosamente ao menos uma vez por mês.
Juno agora fitava algumas garças sobrevoando o lago. Ele havia sentado do meu lado oposto em diagonal na toalha de mesa agora marrom. 
- Perdeu alguma coisa na minha cara? - falou me olhando.
   Juno era extremamente sarcástico.
- Toda a beleza do Universo.
E eu sempre quebrava suas grosserias com algo fofo para deixá-lo sem graça.
Ele ficava lindo envergonhado: seus lábios se curvavam em um “V” invertido e suas bochechas rapidamente ficavam rosadas.
- Você é ridículo - disse ele enquanto pegava um pedaço de bolo de chocolate no centro da toalha. Era seu favorito.
- E você está estranho - eu murmurei e logo percebi que havia pensado alto.
   Juno demorou demais para me responder e isso fez toda diferença. Ele, outrora falante e interessado, naqueles últimos dias havia ficado distante e calado.
- Impressão sua. Eu só estou... perdido com as coisas da faculdade. São várias provas, não aguento mais.
- Vou trancar o curso! - dissemos nós dois ao mesmo tempo. Dizer isso era uma piada interna para qualquer problema que tivéssemos relacionado à faculdade. Mas dessa vez, não rimos.

                                              ~.~

   O comportamento estranho de Juno faria nos separarmos uma semana depois. Nunca soube em que momento aquilo dentro dele, outrora amor, havia mudado ou sumido. E assim, nosso namoro que começara de forma tão calorosa havia durado de um verão ao outro, exatamente quando completaríamos um ano.
   Naqueles dias em sua companhia, eu facilmente acreditava em amor eterno, em almas gêmeas ou em qualquer besteira do gênero que apareça frequentemente em livros de romance adolescente. Aqueles dias eram definitivamente quentes, alegres e ensolarados.
Eu nunca senti frio com Juno ao meu lado.

   Agora, é verão lá fora. O Sol está no ponto máximo do céu e controlo a abertura da janela do meu quarto para diminuir a claridade. 
   É nesse momento que sento na cama, de frente para a janela e envio uma fotografia de mim mesmo para uma rede social que não atualizava há meses depois que nos separamos.
   Percebo com tristeza que as estações se alternaram em nossas vidas e a mais fria no fim prevaleceu. O calor do meu amor não havia sido suficiente para Juno permanecer junto de mim. 
E, enquanto o Sol reina soberano do lado de fora e meu sorriso na foto irradia felicidade, dentro de mim, chove.

domingo, 3 de junho de 2018



Jukebox



  Tiro a roupa e coloco as peças - com exceção da calça jeans - sobre o cesto.
Penduro a calça em um gancho próximo ao espelho e entro.
A água não está tão quente quanto eu esperava mas decido que serve.
E é aí que meus pensamentos todos se desvanecem.
Subitamente me lembro de que não há nenhuma música tocando e entro em pânico.

                                                                ---

  Ciro estava sentado ao meu lado no sofá da sala. Esta conversa aconteceu há mais ou menos uns três anos, mas não tenho certeza. Minhas noções de tempo são péssimas.
  Lembro que sem motivo algum peço para que ele me empreste seu celular. Entro no aplicativo de música e começo a analisar sua playlist intitulada "Music is my boyfriend''.
Neste momento eu rio por tal título soar familiar. A música é muito antiga.
Abro o aparente infinito leque de músicas.
"Susy Meireles, jura?'', digo.
"Hey, que história é essa? Playlist é algo bem íntimo." 
Ciro tenta pegar seu celular mas eu simplesmente o levanto de forma que ele não alcance se permanecer sentado. Sou alguns bons centímetros maior que ele e sempre que posso tiro vantagem de tal fato.
"Ela pode não ter vencido aquele reality mas ganhou meu coração", Ciro diz, um tanto melancólico.
"Belo prêmio de consolação", eu digo tentando irritá-lo. (Ciro fica lindo irritado).
Desço pela lista de músicas e percebo várias misturas de rock antigo, step folk, funk eletrônico, tecnodown e groove punk, a moda do momento.
''Quem é que ouve uma música chamada A Borboleta Andróide?''
''Essa é a tradução do título.Toda boa música em inglês tem uma letra ridícula se traduzida. É um senso comum.''
Simplesmente não contesto porque imediatamente tento pensar em alguma música americana que eu goste muito com uma letra razoável e não consigo.
Se eu pudesse ver meu olhar naquele seguinte momento, provavelmente seria o mesmo de quando alguém te conta uma fofoca muito boa ou algo parecido. Ciro percebe tal expressão e rapidamente olha na tela do seu próprio celular procurando o gatilho.
''Ok, isso é bem constrangedor. Mas em minha defesa, sempre pulo as músicas dele.''
 Guto Berry é um adolescente britânico que ficou famoso há mais ou menos um ano quando um de seus clipes viralizou na internet. Nele, Guto está sem camisa o tempo todo mostrando seu corpo sarado, acompanhado de algumas mulheres bem mais velhas em lingeries de todas as cores possíveis.
O clipe aliado à sua vida cerceada de polêmicas e declarações bizarras o fez famoso e um símbolo do mau gosto musical.
Seu fã clube é majoritariamente constituído de garotas pré-adolescentes antissociais.
E Ciro.
"Legal, legal. Agora quero ver a sua playlist. Você está sob julgamento agora.''
''Sinto desapontá-lo mas não tenho uma playlist.''
''Muito engraçado'', Ciro pega imediatamente meu celular que estava sobre a mesa de centro e o desbloqueia.
Eu havia cadastrado sua íris no sistema de reconhecimento depois de poucos meses de namoro. Péssima ideia.
''Você excluiu o aplicativo. Que ridículo''
''É sério. Eu não tenho uma playlist.''
''Eu sempre vejo você ouvindo música em viagens, na academia, em todo lugar. É um dos motivos da maioria das nossas brigas. Por que está mentindo para mim?''
''Eu ouço rádios dos estilos que gosto ou playlists de outras pessoas. Eu simplesmente não posso criar uma pessoal. É uma longa história''.
Ciro pega o controle remoto que há segundos atrás estava ao lado do meu celular na mesa de centro e desliga a televisão.
''Pois temos todo o tempo do mundo''.
''Você pode ficar chateado se eu contar''.
Ciro simplesmente não responde. Cruza os braços e me encara.
''Ok. Mas eu avisei.
Então, você sabe que nunca colecionei relacionamentos. Não foram muitos.
Mas eu tinha a péssima mania de atribuir músicas à pessoas. Sério, eu sempre fazia isso e achava uma boa ideia.
Com Gabriel, aquele do meu cursinho de inglês, eu decidi que ''Greve de Beijo'' seria nosso tema romântico. O cantor me lembrava muito ele.
Sabíamos a letra de cor e ele até a citou em um dos cartões do nosso segundo Dia dos Namorados juntos. Ele me deu um moletom lindo com uma estampa de caveira psicodélica...''
Ciro me encarou novamente.
''Ok, ok. Foco.
Já com Bento foi a música que tocava quando nos beijamos pela primeira vez na balada.
Com Matias relacionei o álbum todo da Ivy Carter. Minho e eu tínhamos nossa própria playlist compartilhada e íamos adicionando músicas que gostávamos para ouvirmos quando quiséssemos e lembrássemos um do outro.
Enfim, com o tempo, todas as minhas músicas favoritas me lembravam alguém.
E assim, eu sempre ficava triste lembrando do relacionamento com esta pessoa enquanto elas tocavam.''
''Isso é bem bizarro, espero que você saiba''.
''Eu sei. Mas é involuntário.''
''Mas não será mais. Não temos nenhuma música ainda, certo?''
''Certo. Mas você e eu fomos naquele show do Bad Abbot em junho, então eu estive pensando...''
''Não. Negativo. Você não vai atribuir música nenhuma a mim. Assim esse ciclo se encerra comigo e você não vai mais sofrer com isso futuramente.''
''Você fala como se fôssemos terminar.''
Tento fazer drama mas Ciro parece decidido.
''Não, claro que não. Mas por segurança você vai fazer isso. Por mim, ok?''
Aceno a cabeça afirmativamente e ligo a televisão para retomar o programa que assistíamos.

                                                              ---

A relação com Ciro ainda durou um ano e meio depois do episódio. Mas aí eu me mudei para outro estado e não conseguimos mantê-la à distância.
Nossa despedida foi um trauma imenso para mim. Eu amava muito Ciro. Ainda sinto que o amo. E por amá-lo tanto senti que precisava soltar sua mão para que ele pudesse ser feliz com outra pessoa. Decididamente, se ele estivesse feliz, eu também estaria.
Mas os ecos dos nossos momentos vem e vão, não consigo mudar.
E também não consigo mais ficar sem ouvir música por muito tempo.
Porque ele não queria que nenhuma música me remetesse a ele.
E então o silêncio me faz lembrar de Ciro.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Persistência da Memória

Hoje faz um ano que nos vimos pela última vez.
Eu até queria ter uma caixa de pertences que você tivesse deixado comigo para poder te devolver. Seria a desculpa perfeita para te encontrar novamente, mas provavelmente você diria para eu enviá-la pelos Correios.
O que me machuca (ainda) é o fato de que certas rotinas se tornam vício. E vícios são difíceis de superar.
Quando brigávamos para escolher entre água de garrafa ou de copinho eu secretamente adorava a situação.
Ou quando você reclamava por eu deixar todas as minhas roupas jogadas.
E a cera que você usava no cabelo? Meu Deus, o cheiro era horrível. E até disso eu sinto saudade. Porque significava que você estava por perto.
Lembro também que discutíamos sobre móveis da nossa futura casa.
Eu sempre quis móveis malucos, coloridos, vintage. Uma geladeira antiga vermelha com um pinguim bem brega no topo. Você me olhava com cara de asco e dizia que fazia questão de que tudo fosse clean. Preto e branco. Sem enfeites.
Certa vez eu confidenciei com um amigo que "namorar é fazer planos de um futuro que você sabe que não vai acontecer".
Ah, como eu odeio estar certo.
Eu me lembro que uma vez nos hospedamos em um hotel péssimo, com buracos na colcha, banheiro sem porta e uma televisão que não funcionava. E você dizia que estava tudo bem, porque eu estava lá.
Essa necessidade minha de que as pessoas provem que minha presença é necessária sempre provoca minhas carências, acentua minhas dores e afasta pessoas que não gostam muito de estarem sempre presentes.
E então, sem se justificar muito, você se afastou.
Mas é como se você continuasse ali. Aqui.
Eu ainda vejo seu rosto nas pessoas, eu ainda sinto seu perfume às vezes, de repente. E até o cheiro horrível da sua cera de cabelo.
E eu nem posso contar mais com meus amigos pra me ajudarem. Eles insistem em dizer que "vai passar".
Não parece. 
Dizem que uma hora eu vou cair na real de que você nem era tudo isso, de que você nem tem tanta beleza quanto eu digo que tem.
Mas até agora nada mudou pra mim.
E eu já passei da fase de tentar entender o porquê do término, do afastamento.
 E consigo. 
Talvez faria o mesmo na sua situação. Talvez até já tenha feito.
E o pior de tudo é que eu não sei o que fazer a não ser esperar. Segundo esses mesmos amigos "o tempo cura tudo".
E eu espero que ele leve essas lembranças dos nossos momentos. Do modo como eu incondicionalmente amei você.
E esse amor agora virou um vício que não quer sair da minha rotina. 
E rotinas, são difíceis de superar.

terça-feira, 1 de novembro de 2016




ROAR


- Acho que não sinto mais o que sentia antes - disse ele de forma displicente.
Virei-me para fitá-lo.
- Não entendi.
- Eu não te amo mais. Acho que é isso.
Pousei a colher na beira da panela e cruzei os braços sobre meu avental de Mulher Maravilha, presente de três meses de namoro.
- E você decidiu isso em um cinco minutos? Foi mais rápido que o miojo que estou fazendo.
- Não deboche, Luísa. É sério.
- Você quer terminar?
- Não vejo outra alternativa.
- Como você deixa de amar uma pessoa de uma hora para a outra?
- Lá vem você com seus dramas - disse ele enquanto se sentava no sofá colocando uma das minhas almofadas de caveirinhas no colo - Talvez fosse só paixão. E não foi de uma hora para a outra. Eu já estava assim desde Jurerê.
- Mas você disse que me amava todos os dias em que estivemos lá. Era mentira?
- Não era mentira... Só tentei forçar o máximo que pude. Não queria que terminasse assim.
- Uau! Quer dizer que o que vivemos lá era você ''forçando'' felicidade? - dei ênfase na palavra imitando aspas no ar.
- Outra dose de drama na mesa sete, por favor! - ironizou ele enquanto levantava a mão como se chamasse um garçom.
Eu sempre odiei que me chamassem de dramática. Mas nunca neguei que fosse na maioria das vezes. Porém essa não era uma delas. 
Nosso namoro já entrava na casa dos oito meses e eu juro que nunca imaginei que ele estivesse perdendo o interesse na gente.
Tirando vez ou outra que eu o sentia longe, o Leonardo havia se tornado parte de mim.
Fazíamos uma dupla e tanto. Pelo menos era o que eu achava...
- Posso te pedir um favor?
- Claro, Luísa. Ainda somos amigos, não somos?
- Espere um mês, pelo menos para aparecer com outra pessoa.
- O QUE? EU NÃO... LUÍSA. NÃO É ISSO. EU NÃO TENHO OUTRA PESSOA.
- Promete?
- Claro... Eu... Poxa. Que chato isso. Desculpa, desculpa mesmo. Eu me tornei uma pessoa que não gostaria de ser. Não sei o que deu em mim. Mas é isso. Não sinto o mesmo. Desculpe.
 Jurei que ele iria chorar ali na minha frente. Nunca vi o Leonardo chorar. Mesmo quando fomos ver no cinema 'Procurando Dory' e eu chorei feito um filhote de cachorro na primeira noite com os donos novos. 
Mas não foi desse vez, ele só me deu um abraço, pegou sua mochila, a chave do carro, o celular, o boné preto inseparável e partiu.
Faz um ano desde que ele se foi e eu fiz questão de nunca mais vê-lo. 
Não só pessoalmente. Fiz ele sumir de todas as minhas redes sociais e dos círculos de amigos.
Ele virou um nome impronunciável. Para meus amigos ele era o 'você-sabe-quem' na minha ausência. 
Fiquei sabendo que na mesma semana que terminamos ele encontrou outra garota. Giovana era o nome dela. Um amigo em comum me contou sem querer.
Não somos mais amigos mas valeu a informação.
Até alguns meses atrás eu sentia que Leonardo me fizera um favor de deixar eu fazer parte de sua vida. Afinal, os melhores momentos da minha foram com ele.
Mas hoje penso que a sorte foi dele de ter tido uma amostra de como é ter minha companhia e meu amor incondicional ainda que por um pequeno espaço de tempo.
Ele provou, gostou, mas enjoou.
Isso me lembra uma música de uma cantora famosa que, de tanto tocar nas rádios (e na minha playlist), eu não posso nem escutar que já me irrito. 
Deve ser isso: uma música boa, de tanto ser ouvida, fica insuportável.
Eu devo ter me tornado para ele uma dessas músicas. 


sábado, 27 de agosto de 2016


Cavalheiros do Zodíaco

Já eram mais de três horas e a lua minguante sorria para os dois lá embaixo como em um comercial de creme dental.
Eles revezavam no telescópio observando as estrelas e se abraçavam deitados sobre um cobertor azul.
Do lado deles, uma garrafa de champanhe. Nada de taças ou copos.
- É engraçado - diz o mais novo.
- O quê? - O outro vira de barriga para baixo enquanto fixa os olhos no companheiro.
- Quem catalogou as constelações simplesmente viu desenhos nelas. Mas isso não significa que elas realmente pareçam aquilo.
Me parece muito aleatório. Carangueijos, Centauros... É como quando você está brincando de achar desenho em nuvens e quer que todos enxerguem seu dragão nelas.
Houve uma pausa curta em que era possível ouvir corujas ao longe e alguns peixes indo à superfície no rio que tangenciava o gramado.
- Cada pessoa podia ter a oportunidade de nomear uma constelação, não é?
O mais novo não responde. Ele pega a garrafa, ainda na metade e toma dois goles. Ele a oferece mas o outro rejeita.
- Se você pudesse escolher uma constelação que nos representasse, qual seria?
Ele pousa a garrafa na grama, coça sua imensa barba e diz sem pestanejar:
- O Cruzeiro do Sul.
E aponta o céu para que o outro consiga achá-la. Ele enfim a encontra e sorri, dizendo:
- Por quê? 
O outro aponta o horizonte, deita colocando seus braços atrás da cabeça e responde:
- Porquê ela indica o infinito.