Olhos grandes. Gigantes. Com certeza o que me remete a Benício são seus olhos. Ben também possuía um sorriso lindo, ombros largos e um bigode extremamente charmoso.
Mas seus olhos… Lembro-me - mais de uma vez - de ter parado de prestar atenção no que ele dizia enquanto me perdia naqueles globos gigantes. Suas íris negras eram como um imenso buraco negro ou de minhoca (nunca fui bom em física mas Ben era) e ali eu viajava Universo ocular a dentro, ficando longos minutos em transe.
- Você tá divagando de novo, né? - disse ele semicerrando os olhos.
- Coloque a culpa no meu signo. Piscianos são assim.
Finalmente nosso pedido havia ficado pronto. A garçonete pediu licença e colocou os pratos e sucos na mesa. Como de costume, sempre confundiam nossos pedidos.
Ben era bem mais novo e com cara de bebê. Logo, era natural que frequentemente achassem que o suco de laranja era seu. E eu, sempre recebia a caneca de cerveja como lembrança de que era eu quem deveria gostar. Esperávamos eles virarem as costas e destrocávamos as bebidas. Ben havia pedido um hamburguer com bacon e extra de cebola caramelizada. Ele não sabia mas eu não iria beijá-lo tão cedo.
- Você já decidiu se vai aceitar a proposta? - disse ele, com maionese no bigode.
- Ainda não. E tenho só duas semanas. Morar no Canadá sempre foi meu sonho, você sabe.
- Sei. Por isso não entendo ainda porquê não se decidiu.
A ingenuidade de Ben às vezes era irritante. Ele tinha uma alma pura, sem malícias, sem maldade. Eu sempre vencia ele em qualquer jogo estratégico. Parte de mim suspeitava que ele me deixava ganhar para me ver feliz. E era isso que eu amava nele.
- Você é um dos motivos, cara.
Ben arregalou os olhos. Aqueles olhos. Naquela hora eu senti meu coração ser puxado como um peixe quando é pescado e o pescador dá uma arrancada com a vara para garantir que ele seja fisgado.
Naquele momento eu lembrei de um seriado que havia assistido quando adolescente onde a Bruxa enfiava a mão no peito da Princesa e retirava seu coração - literalmente. A Princesa ficava como um zumbi, sem sentimentos. Apenas vagando.
Eu adoraria enfiar a mão no meu peito e entregar meu coração a Ben para não ter que abandoná-lo. Para não sentir a perda. Para não ter que me separar daquele olhar.
- São só dois anos. Eu posso te visitar pelo menos uma vez.
- Ben, você é lindo. Você tem uma vida toda pela frente. Não quero que fique preso a mim. É sério. Você precisa… viver. Quando eu voltar, posso te procurar e…
- Nem termine esse papo aí. Eu não quero outra pessoa - Ben colocou sua mão em cima da minha. Em teoria eu deveria achar romântico mas secretamente fiquei com um pouco de nojo. Amor não combina com maionese.
- Lá vamos nós outra vez. Já conversamos sobre isso. Você é novo…
- Você sempre usando a carta do ‘’você é novo demais e não entende’’. Eu sei que sou imaturo para muitas coisas mas isso não inclui meus sentimentos. Meu amor por você é uma certeza. Não tenho dúvida nenhuma e isso não vai mudar. Não estamos em 1930, cara. Podemos fazer videochamada todos os dias. Quero saber quem são seus amigos lá, qual a previsão do tempo, se a neve é realmente molhada. Tem renas no Canadá?
- E depois você diz que eu que divago facilmente…
Ben mordeu o que restava do seu hamburguer.
Lá fora, o crepúsculo laranja comum na cidade já havia sumido. E eu havia tomado minha decisão.
2 anos depois
Aterrissei no Brasil em uma terça-feira. Havia guardado meu cachecol e gorro na mochila, sabia que aqui isto não seria necessário. No aeroporto, Samanta - minha melhor amiga - esperava-me com um sorriso largo.
- Como foi a viagem? Teve turbulência? Da última vez que fui para Nova York, o aeromoço caiu no meu colo enquanto o avião chacoalhava. Teria sido uma linda história de amor se ele não fosse da idade do meu pai.
Samanta era borbulhante. Era impossível não tomar conta da sua existência. Ela não parava de falar e gesticular. Eu apenas concordava e sorria. Estava exausto pelo vôo.
- Você tem falado com o Ben? - perguntei enquanto ela contava do susto que deu em seu namorado batendo o carro em uma caçamba de entulhos enquanto dirigia.
- Não. Ele meio que sumiu. Vocês estavam se falando? - disse ela com um olhar desconfiado.
- No começo sim. Nos primeiros meses, trocávamos mensagens e ele sempre respondia meus stories no Instagram. Mas eu preferi me distanciar para deixar ele viver.
- Isso não parece muito romântico.
- Não era para ser. Ele tem vinte e poucos anos. Ben merece viver intensamente e não ficar esperando por alguém que nem pode abraçá-lo. Seria egoísmo meu.
Samanta calou-se; o que era curioso e raro. Colocamos minha mala em seu jipe e seguimos para a cidade. No caminho, passamos em frente ao restaurante em que comemos hamburguer em nosso último encontro. Senti uma fisgada no meu coração.
- Tá entregue! Amanhã não se esquece que temos o aniversário do Tulio, hein.
Tulio era o namorado de Samanta, eu adorava conversar com ele sobre qualquer coisa. Ele era o oposto dela, sempre ouvia tudo calado e no final dizia algo muito inteligente.
- Ok. Obrigado por me buscar.
Despedi-me de Samanta e entrei no meu apartamento com as malas. Havia um cheiro de madeira no ar que sempre lembrava-me da minha casa. Chamei pela IA e pedi para tocar uma música da Olivia Rodrigo. Imediatamente pedi para mudar para outra. Olivia Rodrigo me lembrava Ben.
Pouco tempo depois, a campainha tocou. Fui até a porta e lembrei de olhar no olho-mágico da porta para ver quem era. Não esperava ninguém.
Aproximei-me da pequena lente de vidro e vi do outro lado um imenso olho negro me encarando.
- Você já decidiu se vai aceitar a proposta? - disse ele, com maionese no bigode.
- Ainda não. E tenho só duas semanas. Morar no Canadá sempre foi meu sonho, você sabe.
- Sei. Por isso não entendo ainda porquê não se decidiu.
A ingenuidade de Ben às vezes era irritante. Ele tinha uma alma pura, sem malícias, sem maldade. Eu sempre vencia ele em qualquer jogo estratégico. Parte de mim suspeitava que ele me deixava ganhar para me ver feliz. E era isso que eu amava nele.
- Você é um dos motivos, cara.
Ben arregalou os olhos. Aqueles olhos. Naquela hora eu senti meu coração ser puxado como um peixe quando é pescado e o pescador dá uma arrancada com a vara para garantir que ele seja fisgado.
Naquele momento eu lembrei de um seriado que havia assistido quando adolescente onde a Bruxa enfiava a mão no peito da Princesa e retirava seu coração - literalmente. A Princesa ficava como um zumbi, sem sentimentos. Apenas vagando.
Eu adoraria enfiar a mão no meu peito e entregar meu coração a Ben para não ter que abandoná-lo. Para não sentir a perda. Para não ter que me separar daquele olhar.
- São só dois anos. Eu posso te visitar pelo menos uma vez.
- Ben, você é lindo. Você tem uma vida toda pela frente. Não quero que fique preso a mim. É sério. Você precisa… viver. Quando eu voltar, posso te procurar e…
- Nem termine esse papo aí. Eu não quero outra pessoa - Ben colocou sua mão em cima da minha. Em teoria eu deveria achar romântico mas secretamente fiquei com um pouco de nojo. Amor não combina com maionese.
- Lá vamos nós outra vez. Já conversamos sobre isso. Você é novo…
- Você sempre usando a carta do ‘’você é novo demais e não entende’’. Eu sei que sou imaturo para muitas coisas mas isso não inclui meus sentimentos. Meu amor por você é uma certeza. Não tenho dúvida nenhuma e isso não vai mudar. Não estamos em 1930, cara. Podemos fazer videochamada todos os dias. Quero saber quem são seus amigos lá, qual a previsão do tempo, se a neve é realmente molhada. Tem renas no Canadá?
- E depois você diz que eu que divago facilmente…
Ben mordeu o que restava do seu hamburguer.
Lá fora, o crepúsculo laranja comum na cidade já havia sumido. E eu havia tomado minha decisão.
2 anos depois
Aterrissei no Brasil em uma terça-feira. Havia guardado meu cachecol e gorro na mochila, sabia que aqui isto não seria necessário. No aeroporto, Samanta - minha melhor amiga - esperava-me com um sorriso largo.
- Como foi a viagem? Teve turbulência? Da última vez que fui para Nova York, o aeromoço caiu no meu colo enquanto o avião chacoalhava. Teria sido uma linda história de amor se ele não fosse da idade do meu pai.
Samanta era borbulhante. Era impossível não tomar conta da sua existência. Ela não parava de falar e gesticular. Eu apenas concordava e sorria. Estava exausto pelo vôo.
- Você tem falado com o Ben? - perguntei enquanto ela contava do susto que deu em seu namorado batendo o carro em uma caçamba de entulhos enquanto dirigia.
- Não. Ele meio que sumiu. Vocês estavam se falando? - disse ela com um olhar desconfiado.
- No começo sim. Nos primeiros meses, trocávamos mensagens e ele sempre respondia meus stories no Instagram. Mas eu preferi me distanciar para deixar ele viver.
- Isso não parece muito romântico.
- Não era para ser. Ele tem vinte e poucos anos. Ben merece viver intensamente e não ficar esperando por alguém que nem pode abraçá-lo. Seria egoísmo meu.
Samanta calou-se; o que era curioso e raro. Colocamos minha mala em seu jipe e seguimos para a cidade. No caminho, passamos em frente ao restaurante em que comemos hamburguer em nosso último encontro. Senti uma fisgada no meu coração.
- Tá entregue! Amanhã não se esquece que temos o aniversário do Tulio, hein.
Tulio era o namorado de Samanta, eu adorava conversar com ele sobre qualquer coisa. Ele era o oposto dela, sempre ouvia tudo calado e no final dizia algo muito inteligente.
- Ok. Obrigado por me buscar.
Despedi-me de Samanta e entrei no meu apartamento com as malas. Havia um cheiro de madeira no ar que sempre lembrava-me da minha casa. Chamei pela IA e pedi para tocar uma música da Olivia Rodrigo. Imediatamente pedi para mudar para outra. Olivia Rodrigo me lembrava Ben.
Pouco tempo depois, a campainha tocou. Fui até a porta e lembrei de olhar no olho-mágico da porta para ver quem era. Não esperava ninguém.
Aproximei-me da pequena lente de vidro e vi do outro lado um imenso olho negro me encarando.
E aí o Universo me engoliu.
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