Era o slide dezessete de sessenta e tantos. Um inseto verde com asas rendadas e centenas de olhinhos estampava o fundo branco.
Respirei fundo. Minha camisa estava encharcada de suor nas costas e por isso eu evitava virar-me para os professores da banca. Eram três mulheres e um homem. A terceira delas, minha orientadora do TCC, observava-me por baixo de seus óculos vermelhos e com lentes que deixavam seus olhos gigantes. Todos do departamento a respeitavam pois fora escolhida como representante da área dos insetos por um antigo professor ancião e fundador do curso na Universidade. Ela descansou sua caneta no imenso livro que me custara muitas noites de sono e perguntou-me algo.
Surpreendi-me então com uma voz vinda da porta da sala. Luke. A pergunta havia virado palavras aleatórias no meu cérebro e esqueci-me por alguns segundos de absolutamente tudo.
Seis meses antes
A cafeteria onde encontrei-me com Luke pela primeira vez ficava no centro da cidade, entre meu trabalho e a Universidade. Cheguei pouco depois do combinado e quando o vi sentado no interior do café lendo um livro, travei. Luke era lindo.
Ele usava uma camiseta preta de academia que acentuava seus braços fortes e contrastava com sua pele clara. Ele não era musculoso mas tinha um corpo bem definido.
Tomei coragem e entrei. Luke sorriu, me abraçou e começamos a conversar trivialmente.
Horas se passaram e só paramos de falar quando ouvimos um garçom dizendo que já estavam fechando.
Luke dizia que éramos muito parecidos e que tínhamos muito em comum. Estávamos no último semestre da faculdade, ele de Letras e eu de Biotecnologia. Havíamos nos mudado para a cidade vindos de cidades menores. Morávamos sozinhos. Curtíamos algumas mesmas músicas, filmes e seriados. Claramente ele se esforçava para pontuar que tínhamos muitas semelhanças e eu concordava com tudo. Luke era encantador.
Cinco meses antes
Luke percebeu que tínhamos uma pinta exatamente no mesmo lugar: no braço esquerdo, na altura do cotovelo. “Mais uma coisa em comum”, ele dizia. Seu sorriso era quente, conciliador e deixava seus olhos pequenos. Adorava ver Luke sorrindo.
Certa vez, pontuou que nossos cursos tinham algo em comum: o Latim. A língua-mãe que ele era obrigado a aprender - a contragosto - e que eu usava nos nomes científicos das bactérias, vírus e insetos do laboratório. Em uma prova, perdi um ponto inteiro por ter errado a escrita de um nome científico (primeira palavra com inicial maiúscula e segunda com inicial minúscula). Contei para Luke e ele fitou-me com olhar de desaprovação. Sua sobrancelhas formavam um V e sua boca carnuda sumia. Adorava ver Luke irritado.
Quatro meses antes
No nosso aniversário de dois meses de namoro, presenteei-o com um dos meus livros preferidos: Toda Poesia, do Paulo Leminski. Dentro dele, coloquei post-its comentando minhas poesias preferidas. Em alguns apenas fiz desenhos do que sentia enquanto os lia.
Eu tão isósceles
Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão
Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração
Neste, desenhei um triângulo retângulo com olhinhos e uma flechinha escrita “você”.
Junto do livro, coloquei um porta-retrato com um bilhetinho que havia feito para ele dias depois de nos conhecermos. Era uma brincadeira com o fato de Luke ter uma letra pavorosa. Era irônico para mim que ele quisesse ser professor com uma letra tão feia.
Mas tal fato virou um meme entre nós. Luke deixava o porta-retrato na sua mesinha de cabeceira. Seu olhar de desaprovação quando viu que eu havia guardado deixou tudo mais romântico.
Três meses antes
Estava atrasado com meu TCC. Luke passava os fins de semana todos na minha casa me ajudando a escrevê-lo. Já estava entendido em insetos, doenças bacterianas, agronegócio e genética. Ele revisava o que eu já havia feito e elogiava meu português. Comíamos pizza de pepperoni enquanto eu treinava minha apresentação. Luke era sempre o mais otimista e positivo, fazendo poucas críticas sinceras e construtivas. Sempre sorria e pedia para eu recomeçar. Ele deixou seu cabelo levemente encaracolado crescer novamente. Sempre fora uma insegurança para ele e conversávamos horas sobre auto-estima mas convenci-o de que ele ficava lindo de qualquer jeito. Ele também parou de usar boné pois não queria mais escondê-lo.
Dois meses antes
Fazíamos leituras conjuntas de livros por lazer e eu também lia seus livros obrigatórios da Universidade. Eram densos, com linguagem rebuscada e eu muitas vezes nem entendia sobre o que estavam falando. Luke pacientemente explicava-me sua visão e dizia que isso o ajudava a memorizar a história para as aulas. Nunca me considerei sapiossexual mas vê-lo falando suas impressões de leitura me deixava irriquieto. Frequentemente eu fingia não entender para deixá-lo falar mais um pouquinho.
Um mês antes
No nosso quarto mês de namoro, levei Luke para acampar. Minha cidade natal era conhecida por trilhas e cachoeiras e ele sempre pedia-me para levá-lo.
Nunca havia apresentado um namorado para meus pais e tinha muito receio de que não gostassem ou que estivesse obrigando-os a conviver com ele. Já havia me assumido há muito tempo mas meus pais acharam que fingir que eu não era gay seria a melhor maneira de lidar com a situação. Eles não perguntavam da minha vida amorosa e eu não falava dela para não constrangê-los.
Quando chegamos na casa deles em uma manhã de sábado, minha mãe levou Luke até a cozinha e perguntou de sua família e da Universidade. Luke era extrovertido e logo todos da minha família gostavam dele. Foi um alívio perceber que enfim eles aceitavam e que meu namorado seria como qualquer outro agregado da família.
Meu pai nos levou em seu carro até a área de camping na área rural da cidade. Levamos marshmallows na intenção de comê-los na fogueira mas 1) Não sabíamos fazer fogueira e 2) Quando enfim conseguimos, descobrimos que eles não eram específicos para isso e ficaram horríveis.
Por sorte, eu havia comprado batatas chips e comemos sentados na relva do camping olhando as estrelas. Fazia frio e fomos dormir cedo. O vento fazia um barulho horrível do lado de fora da barraca mas estar abraçado com ele fazia eu me concentrar em sua respiração e em mais nada. Luke era a conchinha de dentro. Eu era ligeiramente mais alto que ele e por isso exigi ser a conchinha de fora. Luke olhou-me com seu olhar desaprovação mas enfim aceitou. Percebemos que tínhamos a mania de dormir com um dos pés para fora do cobertor. Era mais uma coisa em comum, observou Luke.
No dia da apresentação
Luke olhou-me por alguns instantes. Não consigo discernir se ele realmente olhava para mim ou para o slide do inseto gigante logo atrás. Foram poucos segundos. Ele virou-se para um dos meus amigos sentados nas cadeiras próximas à porta e pediu algum tipo de informação. Ele assentiu com a resposta que ouviu e olhou novamente em minha direção. Depois foi embora. Provavelmente, pensei eu, era também o dia de sua defesa de TCC.
Ele nunca havia ido a um segundo encontro comigo. Tudo o que aconteceu depois foram projeções minhas de como poderíamos ter sido se ele houvesse me dado uma chance.
Não sei se foram meus cabelos despenteados, meu corpo acima do peso, o fato de eu ser bem mais velho ou meu nervosismo naquela primeira conversa.
Neste dia, na porta, Luke usava uma camisa azul idêntica à minha. Talvez tenha sido isso que ele tenha observado em mim já que provavelmente não se lembrava mais do nosso encontro.
Ocorreu-me que nossas camisas iguais teriam sido mais uma coisa em comum das tantas que nos levariam para caminhos tão diferentes.
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