Quem sou eu

quarta-feira, 2 de outubro de 2019


Mudaram as estações


     Baunilha. Lembrar de Juno sempre ativa alguma área do cérebro responsável pelas memórias e logo em seguida ela sempre interfona para a outra que cuida dos aromas. E Juno definitivamente cheirava à baunilha.
    Naquela tarde de verão, estávamos sentados sobre uma toalha velha de mesa azul . Eu permanecia em posição-de-índio enquanto ele deitava a cabeça no meu colo projetando o corpo para fora da toalha. O Parque da cidade era o destino comum dos moradores, que no fim de semana, o visitavam para passeios, visitas aos animais de seu mini zoológico interno ou simplesmente fazerem piqueniques, assim como nós.
   Um elegante cisne negro fez uma manobra arriscada no lago à nossa frente e assustou-me. Juno amava me ver assustado.
- Você se assusta com absolutamente qualquer coisa - disse ele.
- Eu não tenho culpa - Falei um pouco magoado.
Juno bebia suco de laranja em um copo plástico e mexia em seu celular na outra
mão. Acariciei sua barba fina e dei um beijo em sua testa.
Juno projetou aqueles imensos olhos escuros em mim. Eles eram absurdamente pretos, como se as suas pupilas estivessem totalmente dilatadas e fossem me engolir como um buraco-negro a qualquer momento. E provavelmente eu gostaria.
Perdido em seu olhar, tive um espasmo em uma das pernas e com o movimento, Juno derrubou todo o copo de suco em minha perna.
- Ai, caramba. Desculpa! - exclamou ele, procurando um guardanapo para me secar.
Juno fez o que pôde para secar-me e ficou alguns segundos totalmente aéreo me olhando. Eu o acalmei e ficamos sentados frente a frente.
- Quer namorar comigo? - perguntou ele, tão sério como podia.
- Como é que é?
- Eu esperava receber apenas um sim ou não.
- Calma, é que foi bem aleatório.
- É que como você pode ver, sou bem desastrado e desatento. Prefiro garantir seu amor agora antes que você se arrependa.
   Meu estômago fez um estranho movimento e meus pelos arrepiaram-se um pouco. Saíamos juntos há quatro meses e, mesmo Juno tendo quase seis anos a menos que eu, isso nunca foi um problema.
- Claro que sim. É o que eu mais quero. - respondi rapidamente.
- Então ok - disse ele satisfeito.
- Ok.
Trocamos alguns beijos e voltamos à posição inicial. Era sempre ele que deitava no meu colo, nunca o contrário.

                                                                 ~ . ~

   Meses depois, voltávamos ao mesmo lugar. Nosso piquenique já era uma tradição que seguíamos religiosamente ao menos uma vez por mês.
Juno agora fitava algumas garças sobrevoando o lago. Ele havia sentado do meu lado oposto em diagonal na toalha de mesa agora marrom. 
- Perdeu alguma coisa na minha cara? - falou me olhando.
   Juno era extremamente sarcástico.
- Toda a beleza do Universo.
E eu sempre quebrava suas grosserias com algo fofo para deixá-lo sem graça.
Ele ficava lindo envergonhado: seus lábios se curvavam em um “V” invertido e suas bochechas rapidamente ficavam rosadas.
- Você é ridículo - disse ele enquanto pegava um pedaço de bolo de chocolate no centro da toalha. Era seu favorito.
- E você está estranho - eu murmurei e logo percebi que havia pensado alto.
   Juno demorou demais para me responder e isso fez toda diferença. Ele, outrora falante e interessado, naqueles últimos dias havia ficado distante e calado.
- Impressão sua. Eu só estou... perdido com as coisas da faculdade. São várias provas, não aguento mais.
- Vou trancar o curso! - dissemos nós dois ao mesmo tempo. Dizer isso era uma piada interna para qualquer problema que tivéssemos relacionado à faculdade. Mas dessa vez, não rimos.

                                              ~.~

   O comportamento estranho de Juno faria nos separarmos uma semana depois. Nunca soube em que momento aquilo dentro dele, outrora amor, havia mudado ou sumido. E assim, nosso namoro que começara de forma tão calorosa havia durado de um verão ao outro, exatamente quando completaríamos um ano.
   Naqueles dias em sua companhia, eu facilmente acreditava em amor eterno, em almas gêmeas ou em qualquer besteira do gênero que apareça frequentemente em livros de romance adolescente. Aqueles dias eram definitivamente quentes, alegres e ensolarados.
Eu nunca senti frio com Juno ao meu lado.

   Agora, é verão lá fora. O Sol está no ponto máximo do céu e controlo a abertura da janela do meu quarto para diminuir a claridade. 
   É nesse momento que sento na cama, de frente para a janela e envio uma fotografia de mim mesmo para uma rede social que não atualizava há meses depois que nos separamos.
   Percebo com tristeza que as estações se alternaram em nossas vidas e a mais fria no fim prevaleceu. O calor do meu amor não havia sido suficiente para Juno permanecer junto de mim. 
E, enquanto o Sol reina soberano do lado de fora e meu sorriso na foto irradia felicidade, dentro de mim, chove.

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