Cavalheiros do Zodíaco
Já eram mais de três horas e a lua minguante sorria para os dois lá embaixo como em um comercial de creme dental.
Eles revezavam no telescópio observando as estrelas e se abraçavam deitados sobre um cobertor azul.
Do lado deles, uma garrafa de champanhe. Nada de taças ou copos.
- É engraçado - diz o mais novo.
- O quê? - O outro vira de barriga para baixo enquanto fixa os olhos no companheiro.
- Quem catalogou as constelações simplesmente viu desenhos nelas. Mas isso não significa que elas realmente pareçam aquilo.
Me parece muito aleatório. Carangueijos, Centauros... É como quando você está brincando de achar desenho em nuvens e quer que todos enxerguem seu dragão nelas.
Houve uma pausa curta em que era possível ouvir corujas ao longe e alguns peixes indo à superfície no rio que tangenciava o gramado.
- Cada pessoa podia ter a oportunidade de nomear uma constelação, não é?
O mais novo não responde. Ele pega a garrafa, ainda na metade e toma dois goles. Ele a oferece mas o outro rejeita.
- Se você pudesse escolher uma constelação que nos representasse, qual seria?
Ele pousa a garrafa na grama, coça sua imensa barba e diz sem pestanejar:
- O Cruzeiro do Sul.
E aponta o céu para que o outro consiga achá-la. Ele enfim a encontra e sorri, dizendo:
- Por quê?
O outro aponta o horizonte, deita colocando seus braços atrás da cabeça e responde:
- Porquê ela indica o infinito.
Eu sou o Sol
A luz da sala estava apagada.
Na TV, uma nova série sobre zumbis lançava luzes psicodélicas sobre os dois corpos no sofá.
Elas então foram interrompidas por um aviso de 'sinal ruim' no meio da tela.
- Toda vez que chove essa porra sai do ar.
Ainda com a cabeça no colo do outro, o mais novo concordou.
- O que vamos fazer?
Ambos se fitaram no escuro, tentando acostumar os olhos à penumbra.
Lá fora, a tempestade recém-formada não dava indícios de que acabaria tão cedo.
- Lembra quando há dois anos eu falei que um dia queria dançar na chuva contigo?
- No way. E tu lembra que eu disse que achava a ideia chata?
- Sim. Mas eu ganhei ontem no jogo de cartas e meu prêmio está pendente. Não seja um mau perdedor.
Ambos eram extremamente competitivos e viviam fazendo apostas que iam desde quem faria o jantar e lavaria a louça, até qual dos dois limparia os dejetos de seu cãozinho Bóris.
O vencedor do jogo levantou-se e se dirigiu para a varanda sem nem olhar para trás.
O outro refletiu um pouco, tirou o celular do bolso colocando-o na mesa de centro e o seguiu.
A chuva descia forte, fazendo um barulho estrondoso no capô do jipe laranja na garagem.
Ficaram ali sob o céu aberto por um bom tempo, de cabeças baixas, sentindo
a chuva. As gotas caíam copiosamente em seus rostos próximos, formando gotas ainda maiores que escorriam pelas testas tão próximas.
O mais alto se aproximou e tirando os longos cabelos do rosto do outro, deu um beijo demorado.
E quando enfim descolaram os lábios, a chuva já havia passado e a TV da sala já voltava a fazer barulho.