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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um sorriso e a capa da invisibilidade




Você já se sentiu invisível? Dias desses eu passava pelas ruas da minha cidade natal, onde vivi mais de 20 anos da minha vida e me sentia invisível. É engraçado ver amigos de seus pais, conhecidos e pessoas notórias da cidade com quem você sempre conviveu em reuniões de trabalho dos pais ou porquê a cidade natal em questão é minúscula e todos sempre se encontram, não te reconhecerem. Você passa por elas nas ruas, nas lojas e se sente invisível, intocável. 
É mais ou menos como você se sente com quem você gosta mas que não é recíproco. Você tem medo de se aproximar e tentar um contato mais próximo mas não consegue, ao mesmo tempo que se sente infinitamente mal pelo desprezo causado por não fazê-lo (será que adiantaria mesmo?).
Trabalho com atendimento. Dentre outros serviços, realizo o bancário. Em certos dias do mês, o atendimento praticamente se restringe a velhinhos aposentados. É mais uma ocasião em que você se sente invisível. Exceto por um dia...
Eu como sempre, abri a agência e os atendi. É engraçado como tudo é automático. Eles chegam com suas bolsinhas, ou colocando a mão no bolso da camisa e retiram o cartão de benefício. Além de não responderem seu ''Bom dia'', chegam e empurram o cartão de benefício com um movimento seco e ríspido. Depois do décimo atendido, é impossível manter a simpatia. Ninguém é um robô (eu deveria ser?).
Naquele dia, eu já estava no sétimo aposentado e nenhum ainda havia me respondido os cumprimentos. Nem um sorrisinho sequer. Quando fui para a oitava, era uma senhora que sempre vinha receber seu salário ali. 
Devia ter uns quarenta
e tantos anos e tinha uma pequena cicatriz no queixo. Respirei fundo e disse com um sorriso:
- Bom dia!
Ela se assustou e respondeu:
- Nossa, que susto. Achei que você não me daria bom dia. Estive reparando como ninguém dá a mínima pra isso. Por quê as pessoas são assim?
Minha surpresa foi tão grande que me lembro de ter grunhido uma resposta qualquer. Mas no meu interior eu pensava: ''É exatamente assim que penso''. 
Como atendentes somos treinados a sempre dar um ''Bom dia'' e um sorriso. Mas o que isso significa? Muitos entendem tais cumprimentos apenas como parte do nosso trabalho.
 Algo ''automático''. Mas quer forma de deixar aquilo que parece automático, mais automático ainda que não quebrar isso com uma conversa fiada, um sorriso recíproco um ''Bom dia, tudo bem?''. Não sei se todos os atendentes, vendedores, balconistas se sentem como eu, mas eu às vezes me canso de ser invisível. Quero aparecer, quero ser visto. Lembrado. É pedir muito?

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