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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Persistência da Memória

Hoje faz um ano que nos vimos pela última vez.
Eu até queria ter uma caixa de pertences que você tivesse deixado comigo para poder te devolver. Seria a desculpa perfeita para te encontrar novamente, mas provavelmente você diria para eu enviá-la pelos Correios.
O que me machuca (ainda) é o fato de que certas rotinas se tornam vício. E vícios são difíceis de superar.
Quando brigávamos para escolher entre água de garrafa ou de copinho eu secretamente adorava a situação.
Ou quando você reclamava por eu deixar todas as minhas roupas jogadas.
E a cera que você usava no cabelo? Meu Deus, o cheiro era horrível. E até disso eu sinto saudade. Porque significava que você estava por perto.
Lembro também que discutíamos sobre móveis da nossa futura casa.
Eu sempre quis móveis malucos, coloridos, vintage. Uma geladeira antiga vermelha com um pinguim bem brega no topo. Você me olhava com cara de asco e dizia que fazia questão de que tudo fosse clean. Preto e branco. Sem enfeites.
Certa vez eu confidenciei com um amigo que "namorar é fazer planos de um futuro que você sabe que não vai acontecer".
Ah, como eu odeio estar certo.
Eu me lembro que uma vez nos hospedamos em um hotel péssimo, com buracos na colcha, banheiro sem porta e uma televisão que não funcionava. E você dizia que estava tudo bem, porque eu estava lá.
Essa necessidade minha de que as pessoas provem que minha presença é necessária sempre provoca minhas carências, acentua minhas dores e afasta pessoas que não gostam muito de estarem sempre presentes.
E então, sem se justificar muito, você se afastou.
Mas é como se você continuasse ali. Aqui.
Eu ainda vejo seu rosto nas pessoas, eu ainda sinto seu perfume às vezes, de repente. E até o cheiro horrível da sua cera de cabelo.
E eu nem posso contar mais com meus amigos pra me ajudarem. Eles insistem em dizer que "vai passar".
Não parece. 
Dizem que uma hora eu vou cair na real de que você nem era tudo isso, de que você nem tem tanta beleza quanto eu digo que tem.
Mas até agora nada mudou pra mim.
E eu já passei da fase de tentar entender o porquê do término, do afastamento.
 E consigo. 
Talvez faria o mesmo na sua situação. Talvez até já tenha feito.
E o pior de tudo é que eu não sei o que fazer a não ser esperar. Segundo esses mesmos amigos "o tempo cura tudo".
E eu espero que ele leve essas lembranças dos nossos momentos. Do modo como eu incondicionalmente amei você.
E esse amor agora virou um vício que não quer sair da minha rotina. 
E rotinas, são difíceis de superar.