Quem sou eu

domingo, 3 de junho de 2018



Jukebox



  Tiro a roupa e coloco as peças - com exceção da calça jeans - sobre o cesto.
Penduro a calça em um gancho próximo ao espelho e entro.
A água não está tão quente quanto eu esperava mas decido que serve.
E é aí que meus pensamentos todos se desvanecem.
Subitamente me lembro de que não há nenhuma música tocando e entro em pânico.

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  Ciro estava sentado ao meu lado no sofá da sala. Esta conversa aconteceu há mais ou menos uns três anos, mas não tenho certeza. Minhas noções de tempo são péssimas.
  Lembro que sem motivo algum peço para que ele me empreste seu celular. Entro no aplicativo de música e começo a analisar sua playlist intitulada "Music is my boyfriend''.
Neste momento eu rio por tal título soar familiar. A música é muito antiga.
Abro o aparente infinito leque de músicas.
"Susy Meireles, jura?'', digo.
"Hey, que história é essa? Playlist é algo bem íntimo." 
Ciro tenta pegar seu celular mas eu simplesmente o levanto de forma que ele não alcance se permanecer sentado. Sou alguns bons centímetros maior que ele e sempre que posso tiro vantagem de tal fato.
"Ela pode não ter vencido aquele reality mas ganhou meu coração", Ciro diz, um tanto melancólico.
"Belo prêmio de consolação", eu digo tentando irritá-lo. (Ciro fica lindo irritado).
Desço pela lista de músicas e percebo várias misturas de rock antigo, step folk, funk eletrônico, tecnodown e groove punk, a moda do momento.
''Quem é que ouve uma música chamada A Borboleta Andróide?''
''Essa é a tradução do título.Toda boa música em inglês tem uma letra ridícula se traduzida. É um senso comum.''
Simplesmente não contesto porque imediatamente tento pensar em alguma música americana que eu goste muito com uma letra razoável e não consigo.
Se eu pudesse ver meu olhar naquele seguinte momento, provavelmente seria o mesmo de quando alguém te conta uma fofoca muito boa ou algo parecido. Ciro percebe tal expressão e rapidamente olha na tela do seu próprio celular procurando o gatilho.
''Ok, isso é bem constrangedor. Mas em minha defesa, sempre pulo as músicas dele.''
 Guto Berry é um adolescente britânico que ficou famoso há mais ou menos um ano quando um de seus clipes viralizou na internet. Nele, Guto está sem camisa o tempo todo mostrando seu corpo sarado, acompanhado de algumas mulheres bem mais velhas em lingeries de todas as cores possíveis.
O clipe aliado à sua vida cerceada de polêmicas e declarações bizarras o fez famoso e um símbolo do mau gosto musical.
Seu fã clube é majoritariamente constituído de garotas pré-adolescentes antissociais.
E Ciro.
"Legal, legal. Agora quero ver a sua playlist. Você está sob julgamento agora.''
''Sinto desapontá-lo mas não tenho uma playlist.''
''Muito engraçado'', Ciro pega imediatamente meu celular que estava sobre a mesa de centro e o desbloqueia.
Eu havia cadastrado sua íris no sistema de reconhecimento depois de poucos meses de namoro. Péssima ideia.
''Você excluiu o aplicativo. Que ridículo''
''É sério. Eu não tenho uma playlist.''
''Eu sempre vejo você ouvindo música em viagens, na academia, em todo lugar. É um dos motivos da maioria das nossas brigas. Por que está mentindo para mim?''
''Eu ouço rádios dos estilos que gosto ou playlists de outras pessoas. Eu simplesmente não posso criar uma pessoal. É uma longa história''.
Ciro pega o controle remoto que há segundos atrás estava ao lado do meu celular na mesa de centro e desliga a televisão.
''Pois temos todo o tempo do mundo''.
''Você pode ficar chateado se eu contar''.
Ciro simplesmente não responde. Cruza os braços e me encara.
''Ok. Mas eu avisei.
Então, você sabe que nunca colecionei relacionamentos. Não foram muitos.
Mas eu tinha a péssima mania de atribuir músicas à pessoas. Sério, eu sempre fazia isso e achava uma boa ideia.
Com Gabriel, aquele do meu cursinho de inglês, eu decidi que ''Greve de Beijo'' seria nosso tema romântico. O cantor me lembrava muito ele.
Sabíamos a letra de cor e ele até a citou em um dos cartões do nosso segundo Dia dos Namorados juntos. Ele me deu um moletom lindo com uma estampa de caveira psicodélica...''
Ciro me encarou novamente.
''Ok, ok. Foco.
Já com Bento foi a música que tocava quando nos beijamos pela primeira vez na balada.
Com Matias relacionei o álbum todo da Ivy Carter. Minho e eu tínhamos nossa própria playlist compartilhada e íamos adicionando músicas que gostávamos para ouvirmos quando quiséssemos e lembrássemos um do outro.
Enfim, com o tempo, todas as minhas músicas favoritas me lembravam alguém.
E assim, eu sempre ficava triste lembrando do relacionamento com esta pessoa enquanto elas tocavam.''
''Isso é bem bizarro, espero que você saiba''.
''Eu sei. Mas é involuntário.''
''Mas não será mais. Não temos nenhuma música ainda, certo?''
''Certo. Mas você e eu fomos naquele show do Bad Abbot em junho, então eu estive pensando...''
''Não. Negativo. Você não vai atribuir música nenhuma a mim. Assim esse ciclo se encerra comigo e você não vai mais sofrer com isso futuramente.''
''Você fala como se fôssemos terminar.''
Tento fazer drama mas Ciro parece decidido.
''Não, claro que não. Mas por segurança você vai fazer isso. Por mim, ok?''
Aceno a cabeça afirmativamente e ligo a televisão para retomar o programa que assistíamos.

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A relação com Ciro ainda durou um ano e meio depois do episódio. Mas aí eu me mudei para outro estado e não conseguimos mantê-la à distância.
Nossa despedida foi um trauma imenso para mim. Eu amava muito Ciro. Ainda sinto que o amo. E por amá-lo tanto senti que precisava soltar sua mão para que ele pudesse ser feliz com outra pessoa. Decididamente, se ele estivesse feliz, eu também estaria.
Mas os ecos dos nossos momentos vem e vão, não consigo mudar.
E também não consigo mais ficar sem ouvir música por muito tempo.
Porque ele não queria que nenhuma música me remetesse a ele.
E então o silêncio me faz lembrar de Ciro.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Persistência da Memória

Hoje faz um ano que nos vimos pela última vez.
Eu até queria ter uma caixa de pertences que você tivesse deixado comigo para poder te devolver. Seria a desculpa perfeita para te encontrar novamente, mas provavelmente você diria para eu enviá-la pelos Correios.
O que me machuca (ainda) é o fato de que certas rotinas se tornam vício. E vícios são difíceis de superar.
Quando brigávamos para escolher entre água de garrafa ou de copinho eu secretamente adorava a situação.
Ou quando você reclamava por eu deixar todas as minhas roupas jogadas.
E a cera que você usava no cabelo? Meu Deus, o cheiro era horrível. E até disso eu sinto saudade. Porque significava que você estava por perto.
Lembro também que discutíamos sobre móveis da nossa futura casa.
Eu sempre quis móveis malucos, coloridos, vintage. Uma geladeira antiga vermelha com um pinguim bem brega no topo. Você me olhava com cara de asco e dizia que fazia questão de que tudo fosse clean. Preto e branco. Sem enfeites.
Certa vez eu confidenciei com um amigo que "namorar é fazer planos de um futuro que você sabe que não vai acontecer".
Ah, como eu odeio estar certo.
Eu me lembro que uma vez nos hospedamos em um hotel péssimo, com buracos na colcha, banheiro sem porta e uma televisão que não funcionava. E você dizia que estava tudo bem, porque eu estava lá.
Essa necessidade minha de que as pessoas provem que minha presença é necessária sempre provoca minhas carências, acentua minhas dores e afasta pessoas que não gostam muito de estarem sempre presentes.
E então, sem se justificar muito, você se afastou.
Mas é como se você continuasse ali. Aqui.
Eu ainda vejo seu rosto nas pessoas, eu ainda sinto seu perfume às vezes, de repente. E até o cheiro horrível da sua cera de cabelo.
E eu nem posso contar mais com meus amigos pra me ajudarem. Eles insistem em dizer que "vai passar".
Não parece. 
Dizem que uma hora eu vou cair na real de que você nem era tudo isso, de que você nem tem tanta beleza quanto eu digo que tem.
Mas até agora nada mudou pra mim.
E eu já passei da fase de tentar entender o porquê do término, do afastamento.
 E consigo. 
Talvez faria o mesmo na sua situação. Talvez até já tenha feito.
E o pior de tudo é que eu não sei o que fazer a não ser esperar. Segundo esses mesmos amigos "o tempo cura tudo".
E eu espero que ele leve essas lembranças dos nossos momentos. Do modo como eu incondicionalmente amei você.
E esse amor agora virou um vício que não quer sair da minha rotina. 
E rotinas, são difíceis de superar.