ROAR
- Acho que não sinto mais o que sentia antes - disse ele de forma displicente.
Virei-me para fitá-lo.
- Não entendi.
- Eu não te amo mais. Acho que é isso.
Pousei a colher na beira da panela e cruzei os braços sobre meu avental de Mulher Maravilha, presente de três meses de namoro.
- E você decidiu isso em um cinco minutos? Foi mais rápido que o miojo que estou fazendo.
- Não deboche, Luísa. É sério.
- Você quer terminar?
- Não vejo outra alternativa.
- Como você deixa de amar uma pessoa de uma hora para a outra?
- Lá vem você com seus dramas - disse ele enquanto se sentava no sofá colocando uma das minhas almofadas de caveirinhas no colo - Talvez fosse só paixão. E não foi de uma hora para a outra. Eu já estava assim desde Jurerê.
- Mas você disse que me amava todos os dias em que estivemos lá. Era mentira?
- Não era mentira... Só tentei forçar o máximo que pude. Não queria que terminasse assim.
- Uau! Quer dizer que o que vivemos lá era você ''forçando'' felicidade? - dei ênfase na palavra imitando aspas no ar.
- Outra dose de drama na mesa sete, por favor! - ironizou ele enquanto levantava a mão como se chamasse um garçom.
Eu sempre odiei que me chamassem de dramática. Mas nunca neguei que fosse na maioria das vezes. Porém essa não era uma delas.
Nosso namoro já entrava na casa dos oito meses e eu juro que nunca imaginei que ele estivesse perdendo o interesse na gente.
Tirando vez ou outra que eu o sentia longe, o Leonardo havia se tornado parte de mim.
Fazíamos uma dupla e tanto. Pelo menos era o que eu achava...
- Posso te pedir um favor?
- Claro, Luísa. Ainda somos amigos, não somos?
- Espere um mês, pelo menos para aparecer com outra pessoa.
- O QUE? EU NÃO... LUÍSA. NÃO É ISSO. EU NÃO TENHO OUTRA PESSOA.
- Promete?
- Claro... Eu... Poxa. Que chato isso. Desculpa, desculpa mesmo. Eu me tornei uma pessoa que não gostaria de ser. Não sei o que deu em mim. Mas é isso. Não sinto o mesmo. Desculpe.
Jurei que ele iria chorar ali na minha frente. Nunca vi o Leonardo chorar. Mesmo quando fomos ver no cinema 'Procurando Dory' e eu chorei feito um filhote de cachorro na primeira noite com os donos novos.
Mas não foi desse vez, ele só me deu um abraço, pegou sua mochila, a chave do carro, o celular, o boné preto inseparável e partiu.
Faz um ano desde que ele se foi e eu fiz questão de nunca mais vê-lo.
Não só pessoalmente. Fiz ele sumir de todas as minhas redes sociais e dos círculos de amigos.
Ele virou um nome impronunciável. Para meus amigos ele era o 'você-sabe-quem' na minha ausência.
Fiquei sabendo que na mesma semana que terminamos ele encontrou outra garota. Giovana era o nome dela. Um amigo em comum me contou sem querer.
Não somos mais amigos mas valeu a informação.
Até alguns meses atrás eu sentia que Leonardo me fizera um favor de deixar eu fazer parte de sua vida. Afinal, os melhores momentos da minha foram com ele.
Mas hoje penso que a sorte foi dele de ter tido uma amostra de como é ter minha companhia e meu amor incondicional ainda que por um pequeno espaço de tempo.
Ele provou, gostou, mas enjoou.
Isso me lembra uma música de uma cantora famosa que, de tanto tocar nas rádios (e na minha playlist), eu não posso nem escutar que já me irrito.
Deve ser isso: uma música boa, de tanto ser ouvida, fica insuportável.
Eu devo ter me tornado para ele uma dessas músicas.