ABSTINÊNCIA
Conflito mental ocasionado por tua ausência.
A passagem do tempo se tornará atroz
O mundo não será o mesmo,
nem nós.
E nesse distópico futuro,
só haverá um hábito em comum:
divagar.
Então, o farei da melhor maneira possível:
devagar.
Minha autoria
domingo, 22 de dezembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
O Sorriso Vermelho
Capítulo Primeiro
Chovia torrencialmente. No banco de trás de um carro preto - desses que apareciam em propagandas de tv - Mariana desenhava um rosto alegre no vidro embaçado. Tinha olhos castanhos, cabelos escuros e encaracolados e uma boca vermelha que lembrava a geléia de morango que sua mãe passava nas fatias de pão para ela comer durante o recreio. Na frente do carro, seu irmão Pedro e seu primo Victor conversavam algo sobre bytes e softwares, assunto do qual ela desconhecia totalmente.
No seu celular tocava ''Playing God'' de sua banda preferida. Ela terminou o desenho no vidro e o observou por alguns minutos e sorriu, projetou seu corpo para frente e perguntou ao irmão:
- Pepe, será que o papai já chegou na pousada?
- Não sei Paquita, ele disse que ligaria quando chegasse.
Paquita era o apelido de Mariana desde os 13 anos, quando ganhou um concurso na TV para ser assistente de palco da Xuxa, apresentadora de TV. Seu pai porém, proibiu a garota de virar paquita pois isso atrapalharia seus estudos. Omar desejava há tempos que Mariana fosse da Aeronáutica. A garota porém preferiu fazer o curso de Gastronomia, sempre quis trabalhar em um restaurante fazendo pratos com os quais as pessoas se sentissem mais felizes e esquecessem dos problemas, mesmo que momentaneamente.
- Ele já está demorando - Disse após garantir que houvesse sinal de celular no seu aparelho.
A chuva ficara mais forte que antes e seu irmão decidiu parar o carro perto de uma ponte. Eles estavam a caminho da pousada da família, era Fevereiro e aquele feriado de Carnaval havia sido combinado há muito tempo. Seu pai iria na frente deles pois o carro dele era um furgão, lotado de malas e colchões infláveis. Mariana insistiu em ir com ele mas ele disse que preferia ir sozinho.
No carro, Mariana havia desligado o player do celular - que tocava ''Airplanes'' - e guardou o fone de ouvido em sua bolsa bege com um Snoopy bordado na frente.
- Tem alguém me ligando - disse Pedro antes de pegar o celular no porta-luvas e atender - Alô?
Mariana e Victor tentaram fazer silêncio em vão, a chuva lá fora parecia furiosa. A garota começou a pensar no pai mas foi interrompida com a reação do irmão.
- Sim, ele é meu pai - Respondeu Pedro olhando para Victor e fez uma expressão de surpresa - Como? Deve ser um engano, não é possível!
- O que foi Pepe? Estou ficando preocupada.
- Não, não pode ser. Meu Deus, por quê? O senhor tem certeza? - Ele bateu a mão pesadamente contra o volante - Estamos indo para aí, só esperaremos um pouco a chuva passar...
O rapaz desligou o telefone, sua mão estava trêmula. Ele colocou as mãos no volante e abaixou a cabeça entre elas, ele estava chorando. Victor olhou para Mariana e disse:
- Que foi Pepe? Estamos aflitos
- É Pepe, foi algo com o papai?
- O papai... está morto. Três tiros no peito. Suspeitam de assassinato. Encontraram o carro dele perto de um beco em Tucanópolis. O corpo dele estava a 200 metros, no meio de uns sacos de lixo perto de um restaurante japonês.
Na janela do carro, o desenho do rosto feliz apagou-se e o vidro voltou a ficar totalmente embaçado.
Capítulo Segundo
Em meio aos galhos de eucaliptos altos e frondosos que cobriam a maior parte daquele cemitério, o Sol irradiava feixes de luz que quase obrigavam as pessoas a fazerem uso de óculos escuros. Ironicamente ou não, parecia que a natureza estivesse feliz com aquele funeral.
Mariana, Pedro, alguns parentes distantes e amigos da família acompanhavam o caixão prateado sendo minuciosamente colocado no seu devido lugar à alguns palmos da terra.
No momento em que ele tocava finalmente o fundo, Mariana desviou o olhar, talvez para não se lembrar daquele momento e viu entre as árvores algo que parecia ser o vulto de seu outro irmão, Tadeu.
Ela então se lembrou de algo ocorrido há quase meia década. Naquela época, ela já tinha treze anos sendo a caçula dos três irmãos. Pedro com 15 anos viajava em uma excursão com destino à Foz do Iguaçu no Paraná. Tadeu, o mais velho, acabara de fazer dezoito anos e discutia com seu pai no escritório de casa. Mariana escutava tudo na sala de jantar, fingindo fazer suas tarefas escolares. Ouviu-se então uma batida forte como se um objeto fosse lançado contra a parede. A menina então deixou seus cadernos, levantou-se da mesa e tentou ouvir a conversa de pai e filho, o mais velho dos dois falava algo como:
- ... ninguém pode ficar sabendo disso, entendeu?
- ... se ficarem sabendo o que irá me acontecer?
- ... fosse você não ousaria arriscar!
O telefone da sala tocou no térreo e Mariana saiu, contrariada, de perto do escritório. Não sabia o que tinha acontecido nem o porquê daquela discussão. O que se recordava é que exatamente naquele dia, seu irmão Tadeu nunca mais teria voltado para a casa. Omar dizia que ele havia fugido de casa, por isso nem quis avisar os policias do seu desaparecimento.
A garota divagou por uns minutos e só se recompôs após ser puxada pelo braço pelo seu irmão. O caixão já havia sido coberto por terra e o que parecia ser seu irmão havia sumido de onde ela imaginava que tivesse o visto. Mariana, Pedro e seu primo paterno Diórgenes entraram no carro e foram para casa. A chuva havia misteriosamente cessado.
-----------
- Guichê livre! – gritou o garoto atrás do balcão da livraria. Ele usavas óculos com armação preta e tinha a barba rala, como se não a fizesse há mais de uma semana. Seus cabelos eram pretos e alguns fios brancos já brotavam. Sua tia dizia que eram sinal de inteligência na adolescência. Por baixo do uniforme – uma camisa azul com um Livrarias Escorpião bordado em verde – ele usava uma camiseta branca com um encanador de bigode e roupas vermelhas, era fã de videogames.
- Bom dia. São só esses livros?
A garota entregou a ele dois livros: ‘’Culinária tailandesa e seus pratos exóticos’’ e ‘’Cozinhando com Ferdinand Greau’’. Otávio, o garoto do balcão ficou encantado. Mariana fechou os olhos por alguns segundos, sorriu e disse:
- Só isso mesmo.
Otávio sabia que se lembraria para sempre daquele gesto. Ela fechava os olhos enquanto sorria, era muito rápido e ao mesmo tempo parecia para ele uma eternidade, em que ele esquecia tudo, inclusive do gerente que logo interrompeu seus pensamentos...
- Otávio Augusto, fecharemos em 13 minutos!
- Err... sim, senhor.
Ele voltou a encarar a garota sorridente e disse:
- São sessenta e dois reais e trinta centavos.
Ela então entregou seu cartão de crédito. Otávio ficou animado pois finalmente poderia saber o nome daquela garota que tanto o encantou. Mariana Felix de Lara. Ele passou o cartão, entregou o tíquete e agradeceu. Neste momento, seu gerente já estava ao lado da porta da loja, haviam se passado 12 minutos que para ele pareciam segundos. No seu íntimo, ele se recordara de uma velha música de uma banda qualquer, mais ou menos assim:
Se o tempo parar pra nós dois
Vou tentar te guardar
E eu deixo a saudade aqui
Pra tentar continuar
Vou viver sem você aqui,
Sem você sorrir pra mim,
E só mais uma vez...
As portas de metal da livraria atrapalharam sua lembrança, descendo barulhentas como um raio, barrando a luz do Sol que já se despedia lá fora e atormentando seus pensamentos que como ele previa, nunca mais seriam os mesmos depois daquele sorriso.
Capítulo Terceiro
Pão com queijo e presunto: este era o café-da-manhã preferido de Otávio. Naquela manhã ele preparava um sanduíche enquanto a água do café terminava de ferver. Sempre fora apaixonado por café, postava nas redes sociais os mais variados tipos da bebida e criara um Tumblr apenas para este fim. Ouviu um barulho no quintal e ao abrir a porta, recolheu o jornal que havia acabado de ser entregue pelo Seu Adamastor, o jornaleiro do bairro. Ele sempre perguntava como iam as namoradas de Otávio, deixando-o constrangido.
Otávio, recolheu o jornal com as mãos e fechou a porta com o calcanhar. Logo prestou atenção à uma chamada no rodapé do jornal: ''HOMEM MORRE À TIROS NA VILA CARLOS GOES''. Rapidamente, folheou o jornal até encontrar a matéria completa. Com sua atenção exacerbada à matéria, nem percebeu que a água na chaleira evaporava pelo bico, alarmando a fervura completa e embassando o vidro da janela. Ele só foi se dar conta disso quando terminou de ler por completo a matéria. Sua testa estava molhada, assim como a palma de suas mãos, chegando até a molhar um pouco do jornal, onde ele segurarara. Desligou a chaleira e queimou a ponta dos dedos. Proferiu alguns xingamentos e correu para pegar gelo.
Lembrou-se então que estava atrasado para o trabalho. Nunca aprendeu a dirigir pois não tinha dinheiro suficiente para adquirir um carro. Correu até o ponto-de-ônibus mais perto que ficava em frente ao estúdio de fotografia do Seu Japonês e parou alguns segundos para retomar o fôlego. O ônibus chegou pouco tempo depois e o rapaz gentilmente, esperou todos subirem para só depois procurar um assento disponível.
Faltando quinze minutos para o seu horário de almoço, Otávio pegou os livros da mão da cliente e lançou-os no sistema. Estranhou o título do livro “Grandes ideias, pequenos esforços” do famoso escritor Bernardo Kerf. O livro parecia muito culto para a mente daquela garota. Ela tinha os cabelos vermelhos e trançados com uma fita verde de tecido, usava camisa branca e um colete preto de couro com tachinhas de metal. No umbigo à mostra, pendia um piercing com brilhantes de todas as cores no formato de um laço. Uma calça skinny vermelha e um cuturno marrom completavam o estranho look. Embasbacado com o piercing, Otávio se enganou com o troco da senhorita e deixou suas moedas caírem. A cliente logo atrás da garota na fila, recolheu as moedas do chão e entregou-as gentilmente. Ao dizer o habitual “de nada” como resposta aos agradecimentos da cliente da vez, ela sorriu e ao mesmo tempo fechou os olhos.
Otávio arregalou os olhos e logo reconheceu a garota que havia deixado ele em transe. Mariana esperava pacientemente na fila e logo após a outra moça se despedir e ir embora, disse:
- Oi, sou eu de novo. Acho que ontem esqueci meu cartão por aqui...
- Ah... err... o cartão né... ele está por aqui... – disse Otávio, tirando o objeto da gaveta e fingindo que não sabia direito onde ele estava em uma tentativa de não mostrar que ficara namorando o cartão por horas no dia anterior.
- Desculpe, é que sou meio desastrada e acabo esquecendo tudo.
- Que nada. Pode esquecer o que você quiser – disse Otávio e logo percebeu a besteira que havia dito.
Mariana riu, pegou o cartão de volta, agradeceu e já ia saindo quando voltou a encarar Otávio e disse:
- Bom, na sexta vai ter um Festival de Cosplay lá no Largo dos Coqueiros. Eu e meus amigos vamos, você não quer vir com a gente?
Otávio ficou tão surpreso com o convite que não sabia o que responder. De sua boca saíram apenas algumas palavras inaudíveis que Mariana entendeu como um sim.
- Tudo bem então. Sexta, às seis na frente da feirinha da Dona Divina. Até mais!
E deu um daqueles seus sorrisos inesquecíveis.
-----------------------------------------------
Chegando em casa, Mariana foi direto para seu quarto. Colocou a bolsa em cima de escrivaninha bege onde ficavam seus bichinhos de pelúcia da infância. Quando foi sentar na cama para tirar os sapatos, se deparou com um envelope pardo.
Ela abriu e leu:
“ Querida irmã,
Desculpe por tudo o que fiz.
Sei que você jamais me perdoará mas fiz o que achei melhor para a gente.
Estou indo para a Grécia estudar Arqueologia pois ganhei uma Bolsa de Estudos para lá.
Quando você descobrir tudo, espero que saiba que o tempo todo pensei em você.
Adeus,
Do seu irmão que te ama, Tadeu.”
Mariana conteve o choro. Sem pensar duas vezes, correu até o telefone que ficava na mesma escrivaninha das pelúcias e tentou ligar para o celular de Tadeu. O número era antigo, mas Mariana sempre tentava ligar, em vão, na esperança do irmão desaparecido atender.
Diferentemente das outras vezes, a chamada já caiu diretamente na Caixa Postal.
A garota recolocou o telefone no gancho, desolada e com raiva, bateu o punho na madeira do criado-mudo. Neste instante, ouviu um barulho de vidro quebrado e correu para o escritório de seu pai ver o que tinha ocorrido. Levou um susto ao ver seu primo Victor vasculhando as gavetas da escrivaninha.
- Victor, o que você está fazendo?
O rapaz demonstrou nervosismo quando viu Mariana, devolveu algumas pastas dentro da gaveta e gaguejou evitando encará-la:
- É... Eu esta-tava procurando um documento que o Ti-tio Omar ficou de me entregar.
- Que documento? – disse Mariana, achando tudo aquilo muito estranho.
- Um... Diploma. É! Um diploma. Eu mandei meus diplomas para o Tio Omar analisar e ver se eu tinha o perfil para cuidar da empresa da família. Sabe, eu sempre quis ficar no lugar dele. Digo... Cuidar de tudo quando ele não pudesse mais. Caso ele morresse. Ou se aposentasse né.
- Ah ok. Arrume tudo depois então. A Dona Ermínia odeia bagunça.
Dona Ermínia era a governanta da casa. Cuidara de Mariana e Pedro desde pequenos e sempre nutriu um amor não correspondido por Omar.
Mariana deixou o escritório confusa. Mil ideias percorriam sua mente. No fundo, tinha certeza de que seu pai havia sido assassinado. Não sabia o porquê, mas desconfiava que o assassino era alguém muito próximo à ele. Mas quem? Mal sabia ela que a resposta para essa pergunta mudaria todo o rumo da sua vida...
Capítulo Quarto
Um besouro teimava em sair pela janela. Voava e tentava a todo custo achar um orifício para libertar-se de dentro do quarto para o mundo lá fora. Era desesperador ver pelo vidro as árvores, os campos e não conseguir chegar até lá. Buscou uma passagem por entre a ventarola mas não obteve sucesso. Estava tentando há horas. Tentativas frustradas. Ele então, sem forças, caiu no parapeito da janela, desacordado.
Mariana acordou em um sobressalto. Ela tinha certeza de que estava atrasada pois a claridade do quarto não condizia com aquela a que estava acostumada quando se levantava. Olhou o horário do seu celular: ‘’09:19’’. Havia perdido as duas primeiras aulas da faculdade. Levantou-se correndo e enquanto se trocava, percebeu um barulho vindo do andar de baixo. Abriu a porta e se deu conta que se tratava de uma conversa. Uma voz estranha, grave e outra conhecida: seu irmão. Foi até o corrimão da escada para espiar o que acontecia e viu seu irmão de pé na sala gesticulando com um homem de costas. No seu uniforme preto lia-se ‘’POLICIA’’.
- Bom, isso é tudo. Se tiver novas informações volto a procura-los – Disse o homem estranho e apertou as mãos de Pedro. Foi embora e nem percebeu a presença de Mariana.
Ela desceu as escadas só depois de ter a certeza de que o policial havia ido embora. Então perguntou ao irmão:
- Pepe, o que ele disse?
Pedro assustou-se com a presença da irmã, sentou-se na poltrona e como se toda aquela conversa o tivesse exaurido, falou:
- Paquita, o papai foi assassinado. Os policiais encontraram a carteira dele com todos os documentos, dinheiro e cheques. Quem faria uma coisa dessas?
Mariana espantou-se mas não estranhou o fato. Ela no fundo sabia que o crime era um acerto de contas, não sabia como, apenas sabia.
- Alguém que certamente não gostava do papai... Mas eles acharam alguma pista? – disse ela.
- Sim, duas apenas. A primeira é essa.
Ele então tirou da mesa de centro um botton e entregou na mão da irmã. Mariana analisou o objeto e viu que ele estava muito desgastado. No centro, um desenho chamou sua atenção: duas caudas aparentemente de peixes e no alto algo que não conseguiu identificar. ‘’Um rosto talvez?’’, pensou.
- E o outro é esta pulseira aqui. – E novamente entregou-o nas mãos da irmã que logo percebeu que ela estava pela metade, como se houvesse sido retirada com violência do pulso de seu pai. A corrente era de ouro e dela pendia um pingente com um ‘’smile’’ vermelho. Colocou-a no nível dos olhos para analisa-la melhor e questionou:
- Muito estranho. Por que teriam interesse em uma pulseira? Afinal, não lhe roubaram nada fora isso, não é?
- Sim, sim. Também não entendi. Pode ser que na briga o assassino tenha retirado sem querer...
- É, talvez. Posso ficar com elas?
- Sim, Paquita. Você viu a Dona Ermínia hoje?
- Não Pepe, ela sempre faz nosso café da manhã...
Neste exato momento a governanta da casa abriu a porta do hall de entrada. Usava um longo vestido com hortênsias azuis e tinha uma sacola de compras na mão. Quando avistou os irmãos, disse:
- Bom dia, meus queridos. Comprei geléia de framboesa pra você, Mariana.
- E para mim? – disse o irmão, com ciúmes.
- Para você eu trouxe a conta do supermercado. Era sempre o Senhor Omar que arquivava para pagar no fim do mês. – E entregou o papel para Pedro que o pegou irritado.
- A senhora sempre só gostou da Paquita – disse Pepe antes de ir em direção ao escritório.
- Bobinho – disse Dona Ermínia se dirigindo à Mariana - Eu comprei o cupcake de maracujá que ele tanto gosta.
Ambas riram.
- A polícia esteve aqui? – perguntou a governanta disfarçando a curiosidade verificando se o vaso de plantas da mesa de centro estava em ordem.
- Sim, esteve. Como a senhora sabe? – falou Mariana não poupando a expressão de surpresa.
- Err... Eu vi o carro deles indo embora quando cheguei. Eles disseram algo de importante?
- Sim. Disseram que o papai foi assassinado!
Neste momento Dona Ermínia derrubou toda a compra em resposta ao espanto que aquela frase provocara. Latas de achocolatado, potes de manteiga e outras mercadorias rolavam pela sala. Mariana abaixou-se para ajuda-la a recolher depois de insistentes desculpas da governanta.
- Desculpe-me, minha menina. A morte do seu pai me deixou muito abalada. Quem faria uma coisa dessas?
- Não sei. Mas a polícia com certeza descobrirá – e apertou afetuosamente as mãos da governanta – A senhora faz um chocolate-quente para mim? Preciso comer rápido pois marquei com minha amiga Karitas para irmos em um loja de fantasias, hoje tem o Festival de Cosplay.
- Tudo bem querida, preparo em um instante – disse Dona Ermínia e saiu apressada em direção à cozinha.
-----------------------
Do outro lado da cidade, mais precisamente no Jardim Jaboticabeiras, Otávio abrira seu guarda-roupas e tentava decidir qual seria a personagem da qual ele iria fantasiado no festival. Na sua cama, previsivelmente coberta com um edredon do jogo The Legend of Zelda, várias camisetas, calças e outros acessórios estavam amontoados. Ele então sentou-se em uma cadeira giratória e bufou de cansaço. De repente, como se tivesse uma epifania, dirigiu-se até um baú esquecido no canto de seu quarto e pegou um macacão jeans azul marinho. Subitamente procurou no monte de roupas uma camiseta verde e disse orgulhoso:
- Luigi, pede para o santo dos encanadores me ajudar a conquistar aquela moça?
De repente, o olhar de Otávio ateve-se a um porta-retrato. Nele, uma família de quatro pessoas posava para a foto em uma praia bem movimentada. Ele, uns cinco anos mais jovem, com cabelos desarrumados e uma bermuda colorida. Seu pai, alto, magro, com cabelos grisalhos, a barba por fazer e um óculos de sol não tão moderno; e sua mãe, loira, também alta, com um corpo atlético e um charmoso chapéu de verão. Ela segurava em seu colo, a caçula da família. Tinha uns quatro anos e era loira como a mãe, tinha um rosto angelical e usava óculos-de-sol rosa em formato de coração. Otávio tocou o rosto da irmã na foto e conteve o choro. Lembrou-se de como brincava com ela e a levava no parquinho que ficava a duas quadras da sua casa. Foi interrompido então, pela musiquinha do toque de seu celular. Era a mesma que tocava durante o jogo do Super Mario.
- Oi Mariana, tudo bem? Estou bem também. Estarei lá em meia hora. Ok. Beij...Até lá.
Otávio desligou o celular e sorriu. Um nervoso sorriso.
-------------------------
A banca de jornal era o ponto de encontro. Otávio encostou-se no muro que ficava atrás da banca e tentou não chamar atenção. Impossível. Ele trajava um macacão jeans, botas pretas, uma blusa verde, uma boina no mesmo tom da blusa e é claro, um vasto e incômodo bigode. Suplicou para que Mariana chegasse logo e pouco tempo depois, um carro branco encostou e dele saiu Mariana. Seu longo cabelo encaracolado estava preso em um coque, escondido por uma grande boina rosa. Ela usava um vestido rosa, com um imenso laço no pescoço em um tom mais escuro, o vestido era armado como o de uma bailarina e nas costas, duas pequenas asas brancas e brilhantes, além de meias-calças brancas e uma sapatilha rosa. Nas mãos, um cajado com uma cabeça de ave estilizada.
- Sakura Card Captors? - disse Otávio, abraçando-a em um cumprimento amistoso.
- Claro, sempre fui fã dela. E você, claro, Luigi - observou ela olhando-o de cima em baixo.
- Pois é. Vamos então?
No imenso salão, pôsteres de personagens de quadrinhos, animes e mangás faziam as pessoas se aglomerarem para autógrafos dos autores das revistas e desenhos animados. As redes sociais estavam abarrotadas de posts, fotografias de cosplayers e comentários sobres os melhores stands do festival.
Mariana, Otávio e Serena (amiga de Mariana, fazendo cosplay de Misty) adentraram o salão e pararam em uma lanchonete, sentaram-se em uma mesa que dava visão para todo o andar.
- Um suco de uva com leite, por favor – disse Mariana – E você o que vai querer, Otávio?
- Pode ser um de abacaxi.
- Daqui a pouco começa a balada, vocês vão né? – disse Serena, entusiasmada.
- NÃO! – gritou Otávio que disfarçou ao perceber o quanto havia se exaltado – Digo, não sei dançar. Por favor, não me obriguem.
- Tarde demais. Você veio com a gente, então vai ter que entrar no ritmo. – Respondeu Mariana, sem conter o riso.
Nesse instante, em algum lugar do salão uma música começou a tocar: “Alala” do CSS. Um rapaz vestido de He-Man pediu para dançar com Serena. Os dois saíram e Mariana comentou:
- O que ficou melhor, a peruca loira Chanel ou a espada encapada com papel alumínio?
- A cueca de couro, com certeza – comentou Otávio e ambos riram.
- A moça já tem par para dançar? – e ambos se assustaram. Ao lado de Mariana, um rapaz vestido de Goku, com os cabelos pontudos e cheirando laquê estendeu a mão para a moça.
- Tem sim! – disse Otávio e antes que Mariana pudesse reagir, o encanador verde virou seu rosto e beijou-a.
O beijo dos dois não foi seco nem molhado, nem frio nem quente. Apenas um beijo. Um início. Para eles o tempo parou e nada mais importava. Quando enfim, eles separaram os rostos, a música que tocava já era outra: ‘’Cosmic Love” doFlorence and The Machine.
Capítulo Quinto
- Obrigado, santo dos encanadores! – sussurrou Otávio para o vazio, após entrar em seu quarto acompanhado de Mariana. Fazia dois meses desde o primeiro o beijo e de lá eles vinham se encontrando regularmente, na praça, na faculdade de Mariana, na saída da livraria...
- Então é aqui o quartel general do Luigi? – disse Mariana sentando-se em sua escrivaninha – A propósito, é São Vicente Ferrer.
- O que disse? – perguntou Otávio arquejando as sobrancelhas.
- São Vicente Ferrer, ele é o santo dos encanadores e a quem você devia agradecer – disse rindo.
- Ohh... você... então você ouviu... – gaguejou ele, tentando se justificar.
- Sim, o espelho do seu guarda-roupa é um ótimo retrovisor...
- Droga – praguejou Otávio e sentou-se em sua cama, logo a frente de Mariana.
Ela correu os olhos mais uma vez pelo quarto e deteve-se a um porta-retratos. Pegou-o e disse:
- São seus pais? – Otávio acenou positivamente com a cabeça – são lindos. E essa deve ser sua irmã. Tem os olhos da mãe... A propósito, onde eles estão?
- Meus pais morreram quando eu tinha 17 anos em um acidente de carro – ele ponderou em acrescentar mais alguma informação mas desistiu – Quer um café?
- Sim, soube que você faz um café maravilhoso.
- Soube é? Que passarinho te contou?
- Um chamado: Tumblr.
- Stalker.
Mariana riu fechando os olhos e Otávio admirou-a enquanto pegava o pó de café na prateleira acima da geladeira.
- Ah, você tem que ir à minha casa. É sua vez – disse ela, sentando-se à mesa.
- Claro. Afinal, preciso conhecer logo meu cunhado – falou Otávio enquanto ligava a cafeteira.
Ele então esboçou um sorriso, encostou-se na pia, cruzou os braços e ambos se encararam até que o café ficasse pronto.
Pedro assistia à um reality show na televisão. Catorze participantes são trancafiados em uma mansão e tem apenas um objetivo: mentir. Quem contar mais mentiras leva um prêmio trilionário. A cada mentira descoberta pelos outros jogadores, o mentiroso que caiu por terra é eliminado. Na edição anterior, o vencedor acumulou incríveis 34 mentiras, desde que morava em outro estado até mentir sua própria sexualidade.
- Pedro, posso conversar com você, querido? – interrompeu Dona Ermínia.
- Claro, claro – respondeu ele, ajeitando-se no sofá.
Ela então sentou na poltrona ao seu lado. Olhou para o vazio e disse:
- Preciso ir embora por um tempo. A dor da morte do Seu Omar ainda está latente. Não consigo acreditar que um homem tão saudável e tão bondoso morra assim, de repente. Vou para Alagoas, passar um tempo com minha filha Abigail. Vocês já são bem grandinhos, sabem se cuidar. Quem sabe eu volte, quando tudo isso passar...
- Eu não sei nem o que dizer... – disse Pedro desconcertado.
- Não diga nada, um adeus já basta. O táxi está me esperando, despeça-se da Mariana por mim, Ok? Cuidem-se. Deixei mousse de maracujá na geladeira – então, acenou, abriu um sorriso rápido e saiu pela porta.
Pedro nem teve tempo de ter reação alguma, ela deu uma última olhada na mansão e bateu a porta suavemente. Ele então rapidamente mandou uma mensagem para sua irmã avisando sobre o acontecido.
Entrementes, Mariana e Otávio tomavam o café agora pronto.
- Agora é sua vez. Você precisa conhecer minha casa! – disse Mariana assoprando o café.
- Outro dia. Você sabe que trabalho o dia todo na livraria. Hoje só peguei folga porquê é o aniversário da cidade – lamentou ele.
- Cada vez uma desculpa. Mas tudo bem... - lamentou ela.
Naquele mesmo dia, encontraram-se no parque da cidade. Uma imensa área verde com bancos e pistas de cooper bem frequentada e com uma ótima vista para a lagoa que ficava exatamente no centro da paisagem. Estenderam uma toalha de piquenique perto de uma enorme palmeira e ficaram juntos até o entardecer. Depois, deitados lado a lado, observaram as estrelas e conversaram sobre coisas banais. Então, Otávio incomodou-se com o olhar insistente de Mariana e indagou:
- Que foi?
- Você tem algum segredo? – perguntou ela inexpressivamente.
Otávio não soube responder na hora. Desviou o olhar para o céu e não respondeu. Passados alguns segundos, ele voltou o olhar para ela e disse:
- Não.
E beijou-a. Mas seu olhar o traía. Era perceptível que Otávio escondia um imenso segredo que poderia mudar para sempre a história dos dois.
Capítulo Sexto
As folhas de outono caminhavam pela calçada e produziam barulhos atormentadores. Do lado oposto à casa de Mariana, um vulto mediano com uma capa preta caminhou até o jardim de sua casa e retirou de sua mochila uma lata de spray. Com ela em mãos, fez movimentos circulares na janela da sala no andar térreo e quando se deu por satisfeito foi-se embora. Ao sair, tropeçou no sistema de irrigação do jardim e feriu sua perna. Deu um grande grito e correu.
Mariana acordou suando por segundos antes estar imersa em um sonho com imagens desconexas de seus irmãos tentando contar-lhe algo enquanto eram impedidos por seu pai, que lhes colocava a mão na boca. Ouviu um barulho no jardim, colocou seu roupão felpudo e desceu até o hall. Foi quando foi até a sala onde uma imensa vidraça dava vista para o jardim. Chegou perto do vidro de uma forma que de fora, seu belo rosto encaixou-se perfeitamente no “smile” pichado no vidro da janela. Teve um sobressalto e correu de volta ao seu quarto, ligando imediatamente para a polícia.
Os policiais prometeram procurar o autor do vandalismo nas redondezas e afirmaram que o encontrariam já que o fato dele ter se machucado na fuga diminuir o número de suspeitos e facilitar o trabalho deles já que basta analisar o sangue encontrado no irrigador.
O dia amanheceu rápido e Mariana não se sentiu confortável o bastante para voltar a dormir. Ainda se sentindo insegura, ligou para Otávio vir até a sua casa mas ele disse que não poderia pois estava no trabalho. Um pouco perto das dez da manhã, a campainha tocou e Mariana surpreendeu-se ao ver seu primo Victor com uma mochila e uma mala.
- Victor, quanto tempo. Você está bem? – disse ela ajudando-o com as malas.
- Sim. Vim para a audiência
- Audiência? Que audiência?
- A da morte do titio, ué. Não te falaram nada? – disse ele estranhando a situação.
- Não que eu me lembre. Mas, mas, o que aconteceu? Descobriram o assassino?
- Bem, não sei. Só sei que recebi uma intimação. E o Tatá também, ele me deixou mensagem no Facebook.
Tatá era como todos da família se referiam ao irmão mais velho de Mariana, Tadeu.
- Nossa, faz muito tempo que não o vejo. A última vez foi no fun... Bem, não sei ao certo. Mas vamos subir, você fica no quarto de hóspedes.
- Não, não. Na verdade só vim ver se você está bem. Vou ficar em um hotel.
- Sim, eu estou bem. E feliz de te ver.
- Tudo bem. Vou indo, amanhã conversamos mais, Ok? Preciso te contar uma coisa...
- Ok.
Otávio apareceu na casa de Mariana em seu horário de almoço e sentia-se nervoso pois seria a primeira vez que conheceria a Mansão dos Félix de Lara. Tocou a campainha e logo ele, Mariana e o primo conversavam animados na sala. Mariana contou-os sobre os estranhos fatos da madrugada e ambos discutiram teorias até que Otávio deparou-se com um retrato de família onde a garota, seus dois irmãos e seu pai sorriam sentados embaixo de um pinheiro. Ele arregalou os olhos e avisou Mariana que teria que voltar para o trabalho.
Poucos minutos depois, policiais voltaram a casa de Mariana dizendo terem pego o pichador e convocando-a, assim como a seu irmão para uma audiência no outro dia. Seu tom era sério e grave, como se soubesse que fatos importantes seriam contados.
- Eles encontraram quem matou o titio? – perguntou Victor, um tanto quanto nervoso.
- Parece-me que eles têm boas pistas – disse o policial, olhando inquisitivamente para o garoto.
Virou-se e foi embora.
Passados alguns minutos, Felicidade do Marcelo Jeneci ecoou pelo hall. Era o toque do celular de Mariana. Ela pegou-o e visualizou a mensagem vinda de Otávio “Tenho que te contar uma coisa. Me encontre na pracinha ao lado da feira da Dona Ermínia. É importante”.
A garota sem pensar duas vezes, pegou sua bolsa que estava em cima da mesa da cozinha e dirigiu-se à porta. Quando abriu-a deu de cara com um homem vestido de paletó e gravata negros. Seu olhar era amedrontador.
- A senhorita deve ser Mariana? Filha de Omar? – disse ele sem mexer qualquer outra parte do corpo a não ser a boca.
- Sim, sim. Por quê? – disse ela assustada.
- Precisamos conversar.
- É importante? Tenho que sair resolver um negóc...
- É mais do que importante. Mudará completamente o que a senhorita pensava sobre seu pai.
Mariana não pronunciou mais palavra alguma. Com um aceno convidou o homem a entrar, pediu que ele sentasse e sentou-se a frente dele, do outro lado da mesinha baixa onde tulipas murchas repousavam em um vaso que outrora fora cuidado incessantemente por Dona Ermínia.
- Sou Gregório Vasconcelos, detetive e responsável pelas investigações do assassinato de seu pai. O rumo delas mudou completamente esta semana, para ser sincero, hoje. Após aquele ato de vandalismo que ocorreu de manhã, analisamos novamente as pistas do caso e lembramos da pulseira com o mesmo smile vermelho que o pichado no vidro da casa de vocês.
Pois bem, relembramos o caso de um homem de quarenta e tantos anos chamado Juscelino Pinochet preso há dois anos que carregava exatamente a mesma pulseira encontrada na cena do crime e que pertencia à seu pai. Tal lembrança só foi possível após um dos detentos que conviveu com tal criminoso na cadeia reconheceu o desenho da vidraça e assimilou-o com a pulseira que Pinochet usava.
- E por que esse Juscelino Pinochet foi preso? – disse Mariana, demonstrando intensa atenção nas palavras do detetive.
- Pedofilia. Aí foi só ligar os pontos. Seu pai era fotógrafo, nunca gostou de tirar foto de vocês, já que isso atrapalharia sua “consciência’’, a mesma pulseira e é claro, o fato de seu pai ter uma página na internet chamada “Clube do Sorriso Vermelho’’.
- O SENHOR SÓ PODE ESTAR LOUCO! MEU PAI NÃO É UM PEDÓFILO! – disse a garota levantando-se da cadeira, virando-se de costas para o detetive e segurando o cabelo com uma das mãos em uma expressão de repulsa e incredulidade.
- Eu sei que é difícil de acreditar, senhorita Mariana, mas as provas não param por aí. Passamos a tarde toda investigando a participação do seu pai nesse clube e tudo corrobora com nossa teoria. Ele era um dos chefões do clube. Rastreamos seu IP e ele bate com o do dono dessa página na internet que mencionei anteriormente. Além disso, no notebook que levamos para análise, foram achadas mais de cem fotos de crianças nuas e seminuas. Todas, fantasmagoricamente, sorrindo. Com vergonha. Vermelhas. Acreditamos que isso tenhado dado nome ao clube...
- CHEGA! NÃO QUERO MAIS OUVIR. SAI DA MINHA CASA AGORA! – disse Mariana apontando a porta. O detetive tentou argumentar mas conteve-se. Despediu-se e saiu.
A cabeça de Mariana trabalhava a todo vapor. Flashbacks com cenas de seu pai vinham à sua mente como fogos de artifício. Uma sobre a outra e todas lembrando de fatos que se encaixavam nessa teoria. Seu pai não deixando ela ficar de maiô no clube de piscina. Seu pai chamando a filha pequena da vizinha para ir ao seu escritório. Ela flagrando seu pai vendo fotos de crianças na internet e ele dizendo que estava querendo adotar uma delas. Enfim, tudo se unia, se encaixava. Seu pai era um pedófilo. Um criminoso.
Mariana correu até o quarto e jogou-se na cama. Não conseguia parar de chorar e pensar no seu pai. Nem ligou para o fato de seu irmão Pedro voltar naquela noite de uma viagem à trabalho.
Quando ele chegou, Mariana contou-lhe tudo e Pedro pareceu bem menos surpreso que ela. O garoto contou-lhe outros fatos e flagras que já o faziam desconfiar de algo do gênero. Ambos abraçaram-se e choraram pelo resto da noite.
Durante todo o outro dia, Mariana e Pedro encarregaram-se de se livrar de tudo que lembrasse seu pai. A parte mais modificada da casa fora seu antigo escritório de onde só sobraram algumas estantes de livro e um vaso de flores artificiais, presente de sua mãe.
Quando eles se deram conta, aproximavam-se das oito horas da noite, hora marcada para a tal audiência. Pedro também recebera uma intimação.
Ambos se dirigiram para o fórum da cidade. Chegando lá, andaram por um longo corredor e entraram em uma sala quadrado e com vários assentos. Neles, velhos conhecidos: Dona Ermínia - com um vestido amarelo berrante -, Tadeu, Victor – com certa inquietação visível em suas pernas que batiam incessantemente -, um menino de uns dezessete anos e com um curativo na perna direita e Otávio. Este último ao ver Mariana, correu até seu encontro.
- Por que você não foi me ver ontem? – disse ele num misto de nervosismo e curiosidade.
- Não pude. Um detetive foi até minha casa. É uma longa história.
Ambos foram interrompidos por Gregório que pediu silêncio e começou.
- Bem, boa noite aos presentes. Esta é uma audiência de elucidação do caso da morte de Omar Felix.
Foram apresentados slides sobre as fotos da cena do crime, das pistas e uma simulação em vídeo foi feita da luta corporal na cena do crime. Quando chegou na parte em que Omar é acusado de pedofilia, o clima de inquietação apoderou-se da sala e Dona Ermínia não conteve-se e chorou silenciosamente. Gregório então, pausou uma sequência de slides intitulada “Conclusão do Caso”.
- Pois bem, convoquei todos os senhores aqui por uma razão: já sabemos quem é o possível assassino.
O silencio foi tomado por gritos e bochichos.
- E ele está aqui presente.
E todos se entreolharam com pavor e medo. Sentaram novamente, mantiveram silêncio e olharam para Gregório, que apertou o botão f5 para iniciar a apresentação de slides.
Capítulo Sétimo
As paredes do velho galpão deixavam a luz do Sol passar discretamente por entre as frestas de suas madeiras resistentes ao tempo. A penumbra formada lá dentro deixava a doce menina loira de grandes olhos verdes curiosa e amedrontada. Ela aparentava ter no máximo sete anos e vestia apenas uma saia de seda. Envergonhadamente ela sorria.
- Isso, assim que o titio gosta – disse Omar, atrás de uma máquina fotográfica profissional sorrindo com seu nariz angulado.
O flash assustou a menina que ameaçou chorar. Prontamente Omar aproximou-se e tentou acalmá-la, em vão. Vendo que o possível aumento do choro pudesse alarmar a vizinhança, o homem foi até um antigo armário próximo à única janela do lugar e derramou sobre uma flanela um pouco de líquido vindo de um pote de vidro roxo. A menina que a essa altura já soluçava, nem teve tempo de virar para observar o que acontecia quando subitamente foi sufocada pela flanela umedecida com algum tipo de sedativo e desmaiou sobre o fotógrafo.
Da janela, um jovem menino de cabelos preguiçosamente penteados assistia a cena por entre seus imensos óculos. Uma lágrima escorreu pelo olho direito e embaçou levemente o vidro.
Tais memórias foram recordadas segundos antes do investigador concluir:
- O assassino de Omar Félix é Otávio Augusto Magalhães! – gritou para ter certeza de que todos o ouviriam.
Nesse momento, todos encararam Otávio com expressão de incredulidade. Mariana o encarava como sem entender o que acontecia.
- ELE ASSASSINOU MINHA IRMÃ. MINHA IRMÃZINHA QUERIDA – disse Otávio e olhou para Mariana – Eu tentei te avisar!
Não houve tempo para maiores explicações e dois policiais adentraram a sala para levar Otávio. Mariana não parava de chorar e todos da família a consolavam e ao mesmo tempo ansiavam por uma melhor explicação do que estava acontecendo.
O investigador prosseguiu mostrando as provas, como o botton desgastado da sereia de suas caudas que fazia referência à Starbucks e sua ligação com o fato de Otávio ser viciado em café. Além de terem encontrado as fotos de sua irmã nos arquivos de Omar, demonstrando que a mesma seria uma de suas ‘’favoritas’’. Além disso, algumas ligações de Otávio para Omar, sendo que o primeiro fingia ser um menino de 10 anos e interessado em se encontrar com o fotógrafo (no qual ele foi assassinado).
Depois do choque, Mariana permaneceu imóvel e com um olhar vazio, como que em transe. Seus irmãos e Dona Ermínia tentaram consolá-la entretanto a jovem não demonstrava nenhuma reação. A sessão terminou após algumas horas.
Otávio foi levado para a prisão onde passava seu tempo dividido entre a rotina carcerária e o trabalho na cozinha. Seu café era muito elogiado. Por seu bom comportamento, foi permitido um rádio e alguns CDs dentre os quais se destacavam Panic at the Disco!, The Doors e Apanhador Só, além disso sua pena fora reduzida em cerca de um ano e meio, ficando aprisionado apenas três.
Nos dias que se seguiram ao do julgamento, Mariana recebera inúmeras visitas. Sua casa voltara a ficar cheia como antigamente e todos tentavam tirá-la do efeito traumático que causara a notícia de que o amor da sua vida era o assassino de seu pai.
Um dia, no terraço do antigo quarto de seus pais, Mariana deitara sobre o colo de Tadeu, seu irmão mais velho. Em certo momento, ela o indagou:
- Você sabia? Do papai...
Tadeu não conseguiu conter o espanto. Respirou fundo e respondeu:
- Sim. No dia em que saí de casa o flagrei passando fotos de algumas crianças vítimas da sua insanidade. Discuti feio com ele no escritório e ameacei chamar a polícia. Mas ele me disse que se assim fizesse, ele acabaria contigo. Aí o jeito foi ir embora. Eu não suportava conviver com aquele monstro. Tentei te avisar naquela carta.
Mariana olhou-o nos olhos, ajeitou-se em seu colo e não tocou mais no assunto.
Um mês e meio depois, Mariana se distraía lendo seus e-mails quando recebeu um de seu primo Victor, dizendo o seguinte:
Olá, Paquita
Espero que esteja bem.
Há tempos que eu suspeitava do tio Omar mas não tinha provas que fizessem eu ter certeza. Naquele dia que você me flagrou no escritório dele eu procurava a senha de seu computador para tentar achar as fotos das crianças e manda-las para a polícia.
Espero que me perdoe por não ter te contado antes, mas eu não podia fazer uma acusação dessas sem ter certeza.
Quando eu tinha 11 anos o titio tirou fotos minhas sem roupa. No começo achei normal mas estranhei quando ele pediu para que eu sorrisse e ameaçou-me quando não o fiz. Quanto ao Otávio... Err. Repense. Você não faria o mesmo pelo Pepe ou Tadeu?
Um beijo e melhoras.
Victor.
Mariana terminou de ler e, chorando, correu para o jardim da mansão. Sentou-se em um velho banco de madeira e aço onde ela e seus irmãos haviam filmado uma cena de Forrest Gump para um trabalho escolar de Artes. Colocou a cabeça entre os joelhos e um flashback passou em sua mente. Alternavam-se os seus melhores momentos com seu pai e com Otávio.
Ela não conseguia aceitar a ideia de Otávio ter lhe omitido o fato de ser um assassino. ‘’Ele ia me contar quando?’’ se perguntava. Foi quando um barulho próximo à uma cerejeira chamou atenção. Um ninho de passarinhos se escorava precariamente em seus galhos. Dentro dele, dois passarinhos e um pássaro maior faziam um barulho irritante, como que em perigo. Aproximando-se um pouco mais, Mariana quase gritou ao ver que logo acima deles, uma imensa aranha se aproximava pretendendo comer os filhotes. Nesse momento, um outro passarinho (provavelmente o pai) chegou no ninho e começou a, ainda voando, bicar a aranha e proteger sua ninhada. O pássaro então fez um vôo pelo lado direito da aranha e não percebeu que atrás dela uma imensa teia de aranha estava armada. Ele voou em cheio no seu centro e ficou totalmente imobilizado. O que veio a seguir Mariana sequer quis ver.
------------------------------------------------------------------------------------------------------
Otávio preparava uma pequena mala. Pôs algumas camisetas (entre elas a de Mário, sua favorita) e uma ou duas calças. Seus CDs, dois livros (A História do Rock e Ensaio Sobre A Cegueira) além de outros pequenos pertences. Enquanto se despedia de um detento vizinho, um outro homem de ombros largos e desprovido de cabelos o chamou pelo nome.
- O senhor está livre, Otávio. Sentirei falta dos seus cafés! – disse Brandão, o carcerário.
- Deixei a receita com o ingrediente secreto com o outro cozinheiro – respondeu sorrindo.
Entrou no táxi e sentiu-se incomodado com a claridade da manhã. Ele usufruíra apenas de duas horas diárias para tomar Sol em um cubículo menor que a sala de sua casa.
Quando chegou à sua casa, encontrou-a exatamente como a tinha deixado. Pedira para uma amiga para cuidá-la. Na geladeira, ainda estava o cartão de Dia dos Namorados que Mariana o dera. Otávio pegou-o, sentou no sofá e caiu em prantos. Ele estava tão cansado da rotina da prisão e da cama desconfortável que caiu no sono ali mesmo.
Sonhou que estava na janela de um ônibus acenando para uma mulher loira e radiante. Ela vestia um jaleco branco de médica e em seu peito um crachá mostrava Doutora Isabela Magalhães. Era sua irmã. Ela sorriu e acompanhou o ônibus indo embora. Ao seu lado, uma mulher com longos cabelos cacheados e uma boca cor-de-pimenta. Mariana. Ela olhou para ele e não entendeu seu espanto.
- Que foi? Ânimo. Hoje começamos nossa vida nova! Vamos para a capital ser felizes. Teria como ser diferente?
De repente um imenso barulho. Otávio pensou ser o ônibus que havia batido, mas então acordou e percebeu que alguém batia à sua porta.
Levantou-se e girou a maçaneta. Na sua frente, Mariana nem esperou ele reagir. Abraçou-o e deu um beijo que provavelmente significava perdão.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------
- Quer café? – disse Otávio dirigindo-se à Mariana com uma xícara cor cáqui – Aposto que você ainda não enjoou.
Eram sete da manhã. Pedro e Tadeu haviam saído para trabalhar. Haviam voltado a morar na mansão. Dona Ermínia voltara para o nordeste cuidar de sua filha doente.
- Isso me lembra Café com Aroma de Mulher, aquela novela ridícula do SBT que assistíamos rindo – respondeu Mariana sentada no escritório da mansão.
- Como andam as finanças? – disse ele entregando-lhe o café.
- Bem. Nossa cafeteria tem agradado muito os clientes. Só resta saber se são seus cafés ou meus doces e salgados...
- Digamos que somos uma dupla perfeita. Tipo Batman e Robin.
- Ou Mário e Luigi... – disse Mariana fazendo careta.
- Uma gastróloga e um amante de cafés, impossível dar errado – disse ele abraçando-a por trás da poltrona.
Nesse momento uma menina de aparentes três anos, cabelos loiros e cacheados e um vestido com cabeças de Mickey adentrou a sala com uma girafa de pelúcia na boca.
- Tira isso da boca, Isabela! – disse Mariana correndo ao encontro da garotinha.
- Olha o tamanho da mancha de musse de maracujá no vestido dela... – disse Otávio se aproximando.
- Vou dar banho nela. Enquanto isso, decida o nome do meu novo doce de ábobora com coco. E nada de nomes vindos de vídeo-game, ok?
Otávio fez cara de Gato-de-Botas de Shrek mas vendo que não obteve sucesso, sentou-se na poltrona.
Mariana deu banho na garota e apressou-se para leva-la para a creche que ficava a poucas quadras dali. No banco de trás, a pequena garota usava um uniforme amarelo e um crachá em seu pescoço dizia seu nome Isabela Felix de Magalhães. Provavelmente este seria seu primeiro dia de aula. O carro parou no sinal vermelho da grande avenida que cortava de leste à oeste a cidade. A pequena garota então tirou de sua mochila com desenhos das princesas da Disney um pequeno estojo cor-de-rosa. Dele, escolheu uma canetinha vermelha e virou-se para o vidro do carro. Mariana quis repreendê-la mas decidiu observar a cena.
Isabela fez um círculo (o mais perfeito possível para uma criança naquela idade) e dentro dele pintou duas bolas uma ao lado da outra. Embaixo delas, uma linha horizontal arredondada completava o desenho. Uma careta feliz. Um smile.
Aquele desenho curiosamente não se apagou e Mariana nunca fez questão. Dos seus olhos lágrimas caíram e ela aumentou o rádio que naquela hora tocava “New Perspective”.
O sinal abriu.
O sinal abriu.
O FIM
Assinar:
Comentários (Atom)